quarta-feira, outubro 20, 2004

Traz Um Copo com Água pr’á Gente

Acordei sem conseguir respirar, levando ambas as mãos à garganta. Fui à espreita da chuva lá fora. Esbarrou-se-me o nariz no vidro da janela. Primeiro apenas fria. Depois, embeveci-me e deixei-a embaciada quando apareceste em grãos de chuva.

Já reparaste que ficamos sempre para trás do grupo, disse ele. Não ficamos nada, disse ela. Daqui a pouco já nem os vemos, disse ele. E porquê?, perguntou ela. Porque começamos a falar e paras, riu-se ele. Mas és tu quem aparece, sorriu ela, repara como apareces sempre.

Não bebi café porque não bebo café. As pestanas abrem e fecham como disfarce de uma noite mal dormida. Pela rua cresce o dia cinzento, que não pára de chorar desde que me acordou. Há uma luta de guarda-chuvas em protecção de cabeças com olhos, que murmuram ser demasiado cedo para lágrimas. Há, ainda, quem ache que dá tempo para tudo.

Um croissant e um café, pediu ela. Também queres café?, perguntou-lhe. Não, quero o croissant e um ucal porque não bebo café, disse ele. Os dois com queijo?, perguntaram-lhes. Não, apenas um, porque à falta da cafeína ingere-se tudo com chocolate; o leite e o croissant, respondeu ela. Ele sorriu, ou seja, deu a mesma resposta que ela.

Desde o voltar costas à porta de casa, até pisar um asfalto constipado não arriei o capuz do impermeável, nem os olhos dos pés. A ventania encosta-me jardim público adentro. É ridículo. Mas menos ridícula do que fui, ao amparar uma garganta na cama. Como se o nó estivesse entre lábios. Sigo caminho de laço à boca do estômago.

Tinha que ser croissant, disse ele, e com queijo. Como estivemos observadores no pequeno-almoço de ontem, disse ela, mas levamos também pão para quem quiser. Eu sou muito observador, aliás, vê como voltámos a ficar para trás dos outros, disse ele. E ela correu e ficou à frente de todos.

O chefe irritante chegou-me aqui de cara feia, por isso não tenho dúvidas de que era ele. Pus os phones em volume máximo para ouvir outra coisa além da minha cabeça. É impossível que seja o único a aperceber-me de avaria no aquecimento. De arrepio em arrepio, congela-se-me capilar a capilar. Se pudesse abraçava-me.

Desta vez acertaste, disse ele. Eu avisei, disse ela. Não te acostumes, disse ele. Mas olha só quem apareceu aqui outra vez, disse ela, depois a culpa é minha se ficarmos para trás. E ele avançou até meio do grupo. Por poucos passos. Depois ele subiu enquanto a descida foi dela. No dia seguinte acordaram em horas diferentes mas de manhã. E numa manhã percebe-se que o ontem seria melhor, antes do amanhã.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Trunfo: Habilidade Emocional

Em frente estende-se um espelho do seu tamanho, quando de pé no quarto nº501. Não é o caso. Desfalecem caracóis negros entre o vime da cadeira que ocupa. A tesoura é fatal e não poupa cabelos. Faz parte do jogo. Agora faz, pensa, enquanto acende o quinto cigarro de olhos fixos em si. É no próprio reflexo que procura alternativa.

Avança para algo menos primitivo: um instrumento cortante eléctrico. Com as pontas dos dedos toca ao de leve o couro cabeludo; pica, não muito mas pica. Por menos confortável que seja, veste também o smoking. Por ser o mais indicado, convence-se, ao endireitar o laço cor de vinho, seguindo ambas as mãos por outro espelho – menor que o do quarto – do tamanho do seu tronco – dentro do elevador. Aguarda o primeiro andar: a morada do jogo.

Frequentara o casino durante a última semana. Na primeira visita foi a acompanhar Francisco que conheceu no bar do hotel nessa mesma noite. Juntos atravessaram o vermelho da carpete no hall luxuoso; seis esculturas humanas, dois vulcões artificiais a vomitar fogo e uma queda de água. Cinco horas depois, permaneciam lá dentro. Desafiaram o póquer, roleta, blackjack e outros jogos de casino inclusive as tradicionais slot machines. Não posso precisar o momento em que se apaixonou porque só o soube no depois e não no instante. Certo, é, ter-se já apaixonado pelo póquer e não por Francisco, quando ele despejou o arquivo histórico deste jogo; como derivava de um outro criado pelos persas, como chegou à Europa através do Egipto nas rotas comerciais do Mediterrâneo, e mais um chorrilho de datas e povos e alterações de regras e sequências. Ignorou tudo menos a sequência com interesse: copas, ouro, espadas e paus, padronizada em 52 cartas – que estimularam a sua presença a se tornar habitual no casino do hotel.

Noites seguidas partilhou com Francisco o quarto nº501 onde faziam amor após dividirem lucros – responsáveis pelo apetite de uma nova próxima vez – respeitando o lema de primeiro negócios depois o prazer. Mas num ontem mudou-se tudo; e é isso que recapitula no elevador, de sexto cigarro a caminho da boca que observa ao espelho.

Regressa a dois encontros cruciais. O primeiro, entre a saída do casino e os elevadores, quando foram abordados por um segurança disfarçado num smoking, que através de palmadinhas nas costas de ambos e um sorriso que lhe pareceu ranger, inscreveu-os na lista de pessoas de aspecto não consentido nas mesas de jogos – uma lista, convém referir, onde se exibem fotos digitais de consumidores como eles – é o que se pode chamar “promoção três em um”: ganhe x à banca e leve com um dos nossos pinguins humanos e ainda a sua foto no nosso espaço, agrafada à nossa lista. O segundo choque ocorria poucos metros depois. A porta do elevador fechou com uma mão lá dentro; peça do paquete que gemia do lado de fora. Nervoso, Francisco carregara a palma suada no painel de botões, não acertando no correcto. O ascensor subiu e subitamente cinco dedos engoliram-se para fora. Susto superado, regressavam à Terra, mais precisamente ao elevador, e Francisco agarrou a folha de papel entregue a seus pés pela mão já desaparecida. Leu um fax da mulher. Alertava-o que era hora de regressar a Portugal e que um congresso, tal como tudo e como ela, tinha limite.

Ri-se ao recordar a cara de Francisco mas o jogo corre bem. Não é difícil percebê-lo: em torno da mesa de pano verde, observa-se – jogadores endinheirados, turistas de classe média, músicos, dançarinas, garçons, croupiers, seguranças e todo o pacote de gente de aspecto consentido por estes – a habilidade do jogador de cabelo rapado e laço cor de vinho ao pescoço. Apostam nas suas apostas. A maioria a favor. E fizeram bem: a banca acabou de perder, mais uma vez.

Na pressa Francisco esquecera smoking, faixa e laço cor de vinho, mas não o convite para visitá-lo. Tal como a maioria das palavras ditas por ele, tinha ignorado.

Rodada por minha conta, gritou o jogador minutos atrás, e no casino gritam ainda mais alto brindes a ele, ao póquer, ao dinheiro, aos amigos, à saúde, à felicidade e alguém ergue o copo à cidade: Las Vegas.

Da porta do hotel sai um táxi a caminho do aeroporto. O taxista aumenta o volume ao ouvir

- You can leave your hat on

a voz rouca de Joe Cocker. Solta estalidos da boca enquanto observa pelo retrovisor o assento de trás. Cai um casaco. Uma camisa branca. As calças negras tropeçam no lugar do morto. Sapatos lustrosos voam pela janela e os pés ganham ténis. (Não condizem com o vestido negro, justo e curto, antes escondido debaixo do smoking.)

Alguns quilómetros atrás um paquete e um segurança são despedidos. Durante o seu turno, evaporou-se o ocupante do quarto nº501. Há consumos no hotel, de semana inteira, por pagar.

Tem o cabelo rapado mas aquele corpo não engana, pensa o taxista mais sorridente na noite de Las Vegas. À janela espreita um cigarro. É da mulher que agora considera ir a Portugal. Talvez entregar um laço e uma faixa em tons de vinho tinto. Ou, simplesmente, porque nunca lá foi.



domingo, outubro 10, 2004

Final Fantasy

Não me lembro que espinho cravado entre alvéolos pulmonares nos impedia a respirar como outros – o primeiro objectivo foi esse: esquecer, mas depois até isso esquecemos. Éramos dois robots a cumprir aquele ritual. Talvez por isso já nem sei qual era o meu problema ou o do Rafa

- Puto, mais um fim-de-semana à grande

ao imprimir mãos no volante do jipe pela enésima noite adentro, até à casa de praia dos pais dele. No porta-luvas a ementa de sempre: erva, pastilhas, cocaína e também não sei porquê uma saqueta diferente na minha mão

- Pensava que não curtias seringas…

enquanto ele

- Depois disso livras-te de qualquer fobia

acumulava meia dúzia de latas sem cerveja no assento de trás, entre duas mochilas e uma coisa, diferente no ritual; outro peão. Não daqueles que assinávamos no asfalto a borracha de pneus. Mas um peão humano, à beira da estrada

(- Aquela miúda não é caloira da faculdade?)

e depois da colheita, era a rapariga que mirava pelo retrovisor, pelo que ouvi

- O Rafa disse-me que podia vir

a voz tímida e moída, atropelada pela tosse ao suster bafos no primeiro charro que rodou, e mais um e tosse e outro outra tossidela, e só no quinto enterrado na areia – tal e qual o jipe silenciado nas traseiras da casa destino –, ela

- Nunca tinha fumado na vida

já gargalhava à vez de tossir. E devia de ter um grande problema

(ou outra coisa diferente ou semelhante a tanta coisa)

mas não posso dizer qual, porque não o perguntei à pessoa que mais droga vi meter de uma vez só, como se fosse a última e não a sua primeira vez.

Empurrou-se a porta envidraçada no limite da sala, e nenhum dos três tinha pachorra para perguntas nem respostas porque para isso era preciso falar. A rapariga fez-se cobaia de todo o arsenal: engoliu pastilhas, snifou e recordo um corpo feminino a tombar na varanda entre o meu e o do Rafa – foi ela quem finalizou o cravar da seringa numa veia do antebraço esquerdo. Seguiu-se um momento de nada por aquilo ser tudo, como

(- Depois disso livras-te de qualquer fobia)

o colocar da clave numa pauta musical, em que presenteámos cada retalho de mundo com a posição e entoação das notas. O mundo fez música. Não ouvíamos nada porque fomos música e senhores das coisas. Em posição fetal, aninhados no cimento da varanda com olhos a meio-termo, sem ser preciso falar. Sem sair da varanda, fomos mundo. Até tímidos raios de sol onde me descobri com a cotovelada do Rafa

- Puto… onde está a miúda?

ainda enclausurado na mesma banda sonora que eu e ela, algures, de certeza também. Tive a sensação de concluir a sesta quando tudo e todos iniciavam o almoço. Assim justifico reconhecer-me em pele e o resto como desenhos animados; um constante movimento das coisas até que estas se desfaziam/renasciam que nem serpentinas, e ri-me até à dor de barriga porque não era Carnaval, sem o conseguir explicar ao Rafa, que se levantou e acendeu um cigarro de sangue-frio enquanto olhava o chão da varanda

- Sim, puto… mas onde está a miúda?

Sei lá, passou-se, respondi eu, a atirar qualquer coisa para o ar e por isso surpreendi-me quando ele

- Isso era bom; o mau é que a miúda ainda está passada

chamou-me e vimo-la na praia que nem a Estátua da Liberdade, com o arpão pertencente ao escritório do pai do Rafa, à vez de um facho de luz na mão direita. Foi desnecessário responder ao Rafa

- Não vai pescar, certo?

que saltou varanda até o areal enquanto o meu cérebro, por uma eternidade de tempo desaprendeu a andar. Não movi milímetro e mintam que foi tudo muito rápido, que sou capaz de descrever negativo a negativo. Apenas consegui correr ao susto de sirenes. Agarrei a droga, dinheiro, chaves do jipe e um boné do Rafa. Infiltrei-me na multidão que precisou da morte para fazer parte da vida. Sei como tudo aconteceu, excepto de onde apareceu aquela gente na praia. Vi homens a colocarem cobertores sobre os dois; um estendido numa maca, e no outro aos ombros. Um desses homens é que me disse qual o nome dela, embora não me visse nem ouviu

(- Isso era bom; o mau é que a miúda ainda está passada)

nada da minha boca, ouvi-o a ele

- A Maria vai ter que nos acompanhar

ao fechá-la num carro com sirenes parecidas às da ambulância onde desapareceu o Rafa, só de ténis fora do cobertor. Foi uma luta corpo a corpo, mentiu alguém. Foi uma luta droga a droga, não respondi eu, porque o primeiro objectivo foi esquecer mas depois esqueci-me como se faz isso.


quarta-feira, outubro 06, 2004

Horizonte

Ainda não percebi como entras na vida de alguém sem pedir

- Posso?

uma autorização, sem aguardar que te abra a porta, que assente com a cabeça e com a mão desenhe uma vírgula no ar a indicar-te o caminho

- Faça favor.

Atravessas o hall de entrada e não sabes se agora direita ou esquerda porque pelo único sinal de trânsito na parede é obrigatório ir em frente. Ris-te. Não devias. Mas ris como se fosse inverosímil atravessar paredes. Apenas rio porque te ris. Não ouvi

- Posso?

nenhuma campainha, clarabóia só na casa do vizinho, não há cá escadas de incêndio e podes ser a Super Mulher, mas não escalaste a conduta do lixo porque desde a germinação de pensos higiénicos na sanita das velhotas do rés-do-chão, o escorrega da trampa está encerrado. Mas ris como disfarce de quem não veio da parede.

Apercebes-te que cada coisa tem o seu lugar porque cada coisa fala

- Reservado

a ti
por mim
(falam-te de mim)

enquanto andas cá por casa distraída de pensar que te vejo, ocupada com um espaço onde te encaixes e não me perguntes a mim
(sei lá onde te encaixas)
nem aos cd’s no móvel e os que não cabem na gaveta, nem às molduras

- Esse lugar é meu

nem aos livros

- A Mimi do Sr. Lobo foi à mesa-de-cabeceira mas já volta

nem o teu sorriso a fazer confusão

- Olha que a Mimi é surda mas não é parva

(sei lá onde te encaixas)

impede-me ainda o teu passeio vai na sala que desista de resistir

- Olá, por onde andas?

- (…)

- Também estás em casa?

chamar-te sem surpresa no sim da resposta.
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