quarta-feira, dezembro 15, 2004

Vida (Em) Comum (II)

1. Os intrusos nem sempre caiem pela chaminé, por vezes batem à porta

Assim que lhes abri a porta, senti o arrefecimento global na pele. Caminhámos pelo hall de entrada e eu espetei as pernas, literalmente, contra o cântaro com o azevinho da minha tia Madalena – que nesta altura do ano ganha direito em fazer as honras da casa – enquanto eles os três gesticulavam dos cotovelos aos pés, quase que saltitando no tapete vermelho como se (pareceu-me a mim) ali estivesse uma passadeira escarlate para a sua recepção e o facto de ser Natal, não fosse além de um pormenor interessante, nem de uma coincidência (in) feliz. Sem surpresa, aguardava a minha prima Sílvia de cintura enrolada no braço do recente noivo. Sem surpresa isto aconteceu. Mas ela trazer para a sua própria casa, a Sílvia a trazer pelo próprio braço o diabo para a ceia de Natal, encaixa-me no cérebro como uma definição de auge da ironia. Graças à Sílvia e ao seu novo apêndice chamado Francisco, tenho que me sentar numa mesa com dois metros de iguarias natalícias e agarrar o apetite, mesmo que no lado oposto encare o diabo; a personificar uma sexagenária de cabelo ruivo. É que esta mulher tem um sorriso irritantemente paralisado e exibe-o à minha frente na mesa. Ofusca-me com o casaco de cabedal vermelho muito plástico e apertado, e com a camisola negra de gola alta, preenchida a lantejoulas. Sei que as botas são igualmente negras e reluzentes, além de bicudas; pelo que tive o cuidado de caminhar o mais perto possível da parede do hall de entrada; evitando proximidade deste ser dantesco, com receio que me furasse os calcanhares. À vez disso, rocei-me na folhagem do cântaro de azevinho ao contornar o flanco esquerdo do bengaleiro. E ganhei uma colecção de arranhões para ambas as pernas. «Eunice, que venha o diabo e escolha», disse-me a minha mãe na cozinha, em êxtase com o cheiro da comida quando descobriu que a minha tia cozinhara bacalhau e peru para a consoada. Pois tive a certeza de que o diabo aceitou o convite assim que lhes abri a porta. E dei de caras com esta mulher. Depois sentámo-nos à mesa com ela num frente a frente comigo, num contínuo sorriso de olhos enrugados em mim e em todos. Não se incomoda que a encare olhos nos olhos. Mas, desvio o olhar em cada movimento de cada uma das suas mãos, em cada movimento evidencia-se o relevo de cada uma das suas veias; ora quando ela encaminhou a vela bordada no guardanapo, até ao colo, ora no agora; enquanto olho-a a analisar com a ponta do indicador o cabo trabalhado dos talheres. Não solta nem um monossílabo, quanto mais um “Feliz Natal”. Não baixou os olhos, nem uma única vez, para o prato onde no centro permanece o contorno de um anjo de harpa e asas asseadas. Porque quanto ao bacalhau e ao peru, a versão ruiva do diabo também ainda não lhes deu nem uma garfada.


2. A tradição ainda é o que era

Lembro-me da minha prima desde que me lembro dos meus ataques de tosse. Tossir é a minha forma de partilhar com a Sílvia, inclusive na sua ausência, os momentos hilariantes que ela me proporciona por palavras, actos ou nos meus pensamentos. No fundo, a tossidela é a gargalhada personalizada que tenho para com a Sílvia. Um pouco empoeirada, verdade. Conto um par de meses sem nos vermos. E ela ainda não nos apresentou a personagem da noite que colocou entre o nosso jantar de família. Como muitos dizem “a noite é ainda uma criança”, ou melhor, a criança ainda não nasceu nesta noite de Natal. Porque perto da meia-noite soa directamente da boca da minha mãe para os ouvidos da irmã dela: “Vai buscar o menino!” A tia Madalena ri-se porque o que ela sempre gostou foi do ambiente de festa. «Há Dezembros que prometo a mim mesma trocar a tradição à tua mãe», segredou-me ela no ano passado, «Talvez comprar um mini Pai Natal ou, quem sabe, um coelho de Páscoa júnior para que ela o coloque a dormir nas palhinhas. No Carnaval, se recordares bem, enfeitei o pinheiro de Natal porque me apeteceu. A tua mãe viu e indignou-se mas suportou-o e disse: “A casa é tua!”. Embora no caso do presépio, acredito que ela não manteria a frequência respiratória se eu me decidisse em cruzar os símbolos das épocas festivas.» Depois a tia Madalena benzeu-se três vezes à velocidade da luz, rematando a seco: «Uma simples partida para mim, um sacrilégio para ela. Porque para a tua mãe uma imagem é tudo, a todos os níveis.» Reconsidero todos os anos se estas duas são realmente irmãs. Ou talvez se sou eu a irmã do meu primo Jorge e não a Sílvia. E talvez a Sílvia possa ser a filha da minha mãe, deixando de a tratar por tia Eulália. Porque no retorno da tia Madalena à sala com o menino de loiça entre mãos, um menino de cuecas branca, a minha prima Sílvia encolhe duas dezenas de anos e canta em voz menina de seis. Começa a repetir o início da cantilena “Noite Feliz, Noite Feliz, Noite Feliz” porque nunca apreendeu o seguimento da letra. E eu tusso, claro que tusso enquanto a Sílvia encarna o trovador bem perto da minha mãe, ambas agachadas no presépio. É então colocado o menino entre a vaca e o burro, e ficam as duas a contemplá-lo como se à espera que a criança bolce. Depois a sala é um silêncio onde correspondo, olhos nos olhos, ao riso mudo do meu primo Jorge e da tia Madalena.


3. Mais vale uma tossidela na mão, do que duas a voar

O Natal tem uma sucessão de implicações com a própria palavra. A Sílvia voltou a casa para ocupar o seu lugar à mesa, na sala de jantar, por ser minha prima e porque é Natal. E no Natal as famílias reúnem-se em mesas. No Natal comemora-se o nascimento do Cristo que ano após ano não aumenta de tamanho. Logo, as palhas dos mil e um presépios onde está deitado – um excelente exemplo para o que é ser omnipresente – são eternamente feitas à sua medida. Enquanto eu, aos vinte e dois anos, se teimasse em dormitar ao menos uma perna no meu berço de madeira, arriscava-me a constipar cinco dedos do pé e tornozelo inclusive. Ou, a ser prática, estatelava-me no chão. De modo que, natal implica nascimento e ao nascer implica que já se tem família, o que implica partilhar a refeição natalícia com a pré-família da prima Sílvia. Entendo que o seu noivo Francisco, de cognome “O Lesma” – eu, Eunice, assumo as culpas desta designação – esteja a ocupar uma cadeira à mesa. Entendo não entender que ilustre desconhecida Sra. ruiva, de aspecto infernal, é esta. Por estranho que pareça, os dentes dela moveram-se e acabou de se dirigir ao Jorge – pediu que lhe servisse salada. O meu primo perguntou-lhe: “Alface, pepino e tomates?” “Menino, tomate não tem plural”, respondeu a mulher, sem deitar sobre a mesa o sorriso. O Jorge quebrou a pausa no tempo. “Desculpe, mas acho que ainda não fomos apresentados”, disse ele. A Sílvia interveio e respondeu ao irmão de olhar e boca arregalados: «Jorge, D. Beatriz de Castro d’Almeida», e prosseguiu, «a minha futura sogra ou “mamã” porque agora somos todos família». Sente-se uma nuvem cinzenta a pairar sobre a ceia, enquanto eu tusso bocadinhos de bacalhau para a cara imóvel do Jorge.

segunda-feira, novembro 15, 2004

De Borboleta Para Lagarta

“frequentadas as fossas da noite
redimidos os pecados na repetição
nasce
sabe-lo
o desejo de degustação do caos
da sua primitividade idílica
o enorme colchão do sonho”

Pedro Moura, Sem título


Passou-se um dia que não perguntou por mim. Não quis saber porque fui vazia. A noite cospe-me porta adentro. Continua escuro mesmo depois de chegar ao quarto, de dar bom dia ao candeeiro que paira sobre a secretária e atrai uma borboleta e desconfio, não, e confio, sim, confio que espremeu asas pelo buraco da fechadura porque não deixei nem um rasgão à janela. Trago os olhos abertos no oitavo andar, direito, e continua escuro, mais escuro que o horizonte onde se funde o asfalto e um céu esquecido de bolçar à escuridão asteriscos fluorescentes.

Um homem solteiro acerta o despertador meia hora mais cedo, no intuito de evitar trânsito e o atraso ao trabalho como ocorreu hoje de manhã. Desvia, por momentos, a atenção para o televisor com volume demasiado alto no sétimo andar. Um choque em cadeia, reporta a jornalista perante imagens do IC19, congestionado, enquanto o homem franze o sobrolho. Não sabe se adianta o relógio, se não o atrasa ou se troca o horário laboral. Ou amanhã inicia-se no dia novamente fora do tempo. Acabou de adormecer no sofá de boca aberta e indicador arrochado no comando da televisão.

Alguém entra na cozinha do nono andar esquerdo. Leva a maçã-de-adão congelada. Uma outra maçã deixa de sentir trincas, para os lábios sem batom perguntarem que aconteceu. A resposta fala bolsa, não se refere a nenhuma das que ela tem no guarda-fato, fala oscilação, semelhante ao ritmo cardíaco que já sentia ao ouvir falar de um tal “psi”, que não lhe soou familiar mas, sem dúvida, um bom baptismo para o culpado pelo cancelamento das férias nas Maldivas, pensou ela antes de voltar a morder a maçã.

No décimo primeiro andar, uma mulher escolhe escrupulosamente a roupa para o almoço do dia seguinte. Trata-se de um encontro decisivo, em que é tudo ou nada, define ela. Escolhe o negro porque faz-lhe parecer mais magra, ficando na dúvida se leva gola alta, se a camisola três quartos de manga. Há que contrariar o boletim meteorológico, uma vez que eles contrariam as variações climatéricas, sempre pensou ela, só que ontem anunciaram aguaceiros e a esta hora ainda chove, pensa ela, enquanto senta à beira-cama com a certeza de que amanhã sai de preto.

Um casal de trintões tem a trigésima discussão em três meses de casamento. O apartamento alugado não pertence a nenhum mas é ele quem decide dormir em casa dos pais. Ela desvia uma frase das cordas vocais. Não se tocam. O elevador parte do quinto andar com ele a repetir se pudesse abraçava-me, tal como ela disse. Seis meses à frente deixarão de ter à perna a burocracia e divórcio oficializado.

Solta-se entre mãos de rapariga meia dúzia de búzios, no soalho do décimo andar. Os fusos insistem na queda, nas infinitas orientações e um deles decide-se no agora em esconder a concha por debaixo da cama. A rapariga abana a cabeça, descruza as pernas e levanta-se e olha o chão, sem perceber como há quem procure rumo em moluscos. A rapariga chora, abanando a cabeça.

Um recanto no quarto. Avanço à luz de três velas à vez do candeeiro, três pavios a acordar diferentes sombras que observo, que me observam, sem saber quem se espalha em redor de quem. Tudo ordenado no oitavo andar. Tudo calmo, no lado direito. Silêncio. Um bater de asas em silêncio. Uma borboleta bate asas no meu quarto e penso: onde será o furacão, será longe. Logo não o posso sentir aqui, não é por isso que escorrego parede abaixo de caos no ventre. Por dentro. Por fora, tudo ordenado. Calmo. Um silêncio onde fico com medo de virar lagarta.


quarta-feira, outubro 20, 2004

Traz Um Copo com Água pr’á Gente

Acordei sem conseguir respirar, levando ambas as mãos à garganta. Fui à espreita da chuva lá fora. Esbarrou-se-me o nariz no vidro da janela. Primeiro apenas fria. Depois, embeveci-me e deixei-a embaciada quando apareceste em grãos de chuva.

Já reparaste que ficamos sempre para trás do grupo, disse ele. Não ficamos nada, disse ela. Daqui a pouco já nem os vemos, disse ele. E porquê?, perguntou ela. Porque começamos a falar e paras, riu-se ele. Mas és tu quem aparece, sorriu ela, repara como apareces sempre.

Não bebi café porque não bebo café. As pestanas abrem e fecham como disfarce de uma noite mal dormida. Pela rua cresce o dia cinzento, que não pára de chorar desde que me acordou. Há uma luta de guarda-chuvas em protecção de cabeças com olhos, que murmuram ser demasiado cedo para lágrimas. Há, ainda, quem ache que dá tempo para tudo.

Um croissant e um café, pediu ela. Também queres café?, perguntou-lhe. Não, quero o croissant e um ucal porque não bebo café, disse ele. Os dois com queijo?, perguntaram-lhes. Não, apenas um, porque à falta da cafeína ingere-se tudo com chocolate; o leite e o croissant, respondeu ela. Ele sorriu, ou seja, deu a mesma resposta que ela.

Desde o voltar costas à porta de casa, até pisar um asfalto constipado não arriei o capuz do impermeável, nem os olhos dos pés. A ventania encosta-me jardim público adentro. É ridículo. Mas menos ridícula do que fui, ao amparar uma garganta na cama. Como se o nó estivesse entre lábios. Sigo caminho de laço à boca do estômago.

Tinha que ser croissant, disse ele, e com queijo. Como estivemos observadores no pequeno-almoço de ontem, disse ela, mas levamos também pão para quem quiser. Eu sou muito observador, aliás, vê como voltámos a ficar para trás dos outros, disse ele. E ela correu e ficou à frente de todos.

O chefe irritante chegou-me aqui de cara feia, por isso não tenho dúvidas de que era ele. Pus os phones em volume máximo para ouvir outra coisa além da minha cabeça. É impossível que seja o único a aperceber-me de avaria no aquecimento. De arrepio em arrepio, congela-se-me capilar a capilar. Se pudesse abraçava-me.

Desta vez acertaste, disse ele. Eu avisei, disse ela. Não te acostumes, disse ele. Mas olha só quem apareceu aqui outra vez, disse ela, depois a culpa é minha se ficarmos para trás. E ele avançou até meio do grupo. Por poucos passos. Depois ele subiu enquanto a descida foi dela. No dia seguinte acordaram em horas diferentes mas de manhã. E numa manhã percebe-se que o ontem seria melhor, antes do amanhã.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Trunfo: Habilidade Emocional

Em frente estende-se um espelho do seu tamanho, quando de pé no quarto nº501. Não é o caso. Desfalecem caracóis negros entre o vime da cadeira que ocupa. A tesoura é fatal e não poupa cabelos. Faz parte do jogo. Agora faz, pensa, enquanto acende o quinto cigarro de olhos fixos em si. É no próprio reflexo que procura alternativa.

Avança para algo menos primitivo: um instrumento cortante eléctrico. Com as pontas dos dedos toca ao de leve o couro cabeludo; pica, não muito mas pica. Por menos confortável que seja, veste também o smoking. Por ser o mais indicado, convence-se, ao endireitar o laço cor de vinho, seguindo ambas as mãos por outro espelho – menor que o do quarto – do tamanho do seu tronco – dentro do elevador. Aguarda o primeiro andar: a morada do jogo.

Frequentara o casino durante a última semana. Na primeira visita foi a acompanhar Francisco que conheceu no bar do hotel nessa mesma noite. Juntos atravessaram o vermelho da carpete no hall luxuoso; seis esculturas humanas, dois vulcões artificiais a vomitar fogo e uma queda de água. Cinco horas depois, permaneciam lá dentro. Desafiaram o póquer, roleta, blackjack e outros jogos de casino inclusive as tradicionais slot machines. Não posso precisar o momento em que se apaixonou porque só o soube no depois e não no instante. Certo, é, ter-se já apaixonado pelo póquer e não por Francisco, quando ele despejou o arquivo histórico deste jogo; como derivava de um outro criado pelos persas, como chegou à Europa através do Egipto nas rotas comerciais do Mediterrâneo, e mais um chorrilho de datas e povos e alterações de regras e sequências. Ignorou tudo menos a sequência com interesse: copas, ouro, espadas e paus, padronizada em 52 cartas – que estimularam a sua presença a se tornar habitual no casino do hotel.

Noites seguidas partilhou com Francisco o quarto nº501 onde faziam amor após dividirem lucros – responsáveis pelo apetite de uma nova próxima vez – respeitando o lema de primeiro negócios depois o prazer. Mas num ontem mudou-se tudo; e é isso que recapitula no elevador, de sexto cigarro a caminho da boca que observa ao espelho.

Regressa a dois encontros cruciais. O primeiro, entre a saída do casino e os elevadores, quando foram abordados por um segurança disfarçado num smoking, que através de palmadinhas nas costas de ambos e um sorriso que lhe pareceu ranger, inscreveu-os na lista de pessoas de aspecto não consentido nas mesas de jogos – uma lista, convém referir, onde se exibem fotos digitais de consumidores como eles – é o que se pode chamar “promoção três em um”: ganhe x à banca e leve com um dos nossos pinguins humanos e ainda a sua foto no nosso espaço, agrafada à nossa lista. O segundo choque ocorria poucos metros depois. A porta do elevador fechou com uma mão lá dentro; peça do paquete que gemia do lado de fora. Nervoso, Francisco carregara a palma suada no painel de botões, não acertando no correcto. O ascensor subiu e subitamente cinco dedos engoliram-se para fora. Susto superado, regressavam à Terra, mais precisamente ao elevador, e Francisco agarrou a folha de papel entregue a seus pés pela mão já desaparecida. Leu um fax da mulher. Alertava-o que era hora de regressar a Portugal e que um congresso, tal como tudo e como ela, tinha limite.

Ri-se ao recordar a cara de Francisco mas o jogo corre bem. Não é difícil percebê-lo: em torno da mesa de pano verde, observa-se – jogadores endinheirados, turistas de classe média, músicos, dançarinas, garçons, croupiers, seguranças e todo o pacote de gente de aspecto consentido por estes – a habilidade do jogador de cabelo rapado e laço cor de vinho ao pescoço. Apostam nas suas apostas. A maioria a favor. E fizeram bem: a banca acabou de perder, mais uma vez.

Na pressa Francisco esquecera smoking, faixa e laço cor de vinho, mas não o convite para visitá-lo. Tal como a maioria das palavras ditas por ele, tinha ignorado.

Rodada por minha conta, gritou o jogador minutos atrás, e no casino gritam ainda mais alto brindes a ele, ao póquer, ao dinheiro, aos amigos, à saúde, à felicidade e alguém ergue o copo à cidade: Las Vegas.

Da porta do hotel sai um táxi a caminho do aeroporto. O taxista aumenta o volume ao ouvir

- You can leave your hat on

a voz rouca de Joe Cocker. Solta estalidos da boca enquanto observa pelo retrovisor o assento de trás. Cai um casaco. Uma camisa branca. As calças negras tropeçam no lugar do morto. Sapatos lustrosos voam pela janela e os pés ganham ténis. (Não condizem com o vestido negro, justo e curto, antes escondido debaixo do smoking.)

Alguns quilómetros atrás um paquete e um segurança são despedidos. Durante o seu turno, evaporou-se o ocupante do quarto nº501. Há consumos no hotel, de semana inteira, por pagar.

Tem o cabelo rapado mas aquele corpo não engana, pensa o taxista mais sorridente na noite de Las Vegas. À janela espreita um cigarro. É da mulher que agora considera ir a Portugal. Talvez entregar um laço e uma faixa em tons de vinho tinto. Ou, simplesmente, porque nunca lá foi.



domingo, outubro 10, 2004

Final Fantasy

Não me lembro que espinho cravado entre alvéolos pulmonares nos impedia a respirar como outros – o primeiro objectivo foi esse: esquecer, mas depois até isso esquecemos. Éramos dois robots a cumprir aquele ritual. Talvez por isso já nem sei qual era o meu problema ou o do Rafa

- Puto, mais um fim-de-semana à grande

ao imprimir mãos no volante do jipe pela enésima noite adentro, até à casa de praia dos pais dele. No porta-luvas a ementa de sempre: erva, pastilhas, cocaína e também não sei porquê uma saqueta diferente na minha mão

- Pensava que não curtias seringas…

enquanto ele

- Depois disso livras-te de qualquer fobia

acumulava meia dúzia de latas sem cerveja no assento de trás, entre duas mochilas e uma coisa, diferente no ritual; outro peão. Não daqueles que assinávamos no asfalto a borracha de pneus. Mas um peão humano, à beira da estrada

(- Aquela miúda não é caloira da faculdade?)

e depois da colheita, era a rapariga que mirava pelo retrovisor, pelo que ouvi

- O Rafa disse-me que podia vir

a voz tímida e moída, atropelada pela tosse ao suster bafos no primeiro charro que rodou, e mais um e tosse e outro outra tossidela, e só no quinto enterrado na areia – tal e qual o jipe silenciado nas traseiras da casa destino –, ela

- Nunca tinha fumado na vida

já gargalhava à vez de tossir. E devia de ter um grande problema

(ou outra coisa diferente ou semelhante a tanta coisa)

mas não posso dizer qual, porque não o perguntei à pessoa que mais droga vi meter de uma vez só, como se fosse a última e não a sua primeira vez.

Empurrou-se a porta envidraçada no limite da sala, e nenhum dos três tinha pachorra para perguntas nem respostas porque para isso era preciso falar. A rapariga fez-se cobaia de todo o arsenal: engoliu pastilhas, snifou e recordo um corpo feminino a tombar na varanda entre o meu e o do Rafa – foi ela quem finalizou o cravar da seringa numa veia do antebraço esquerdo. Seguiu-se um momento de nada por aquilo ser tudo, como

(- Depois disso livras-te de qualquer fobia)

o colocar da clave numa pauta musical, em que presenteámos cada retalho de mundo com a posição e entoação das notas. O mundo fez música. Não ouvíamos nada porque fomos música e senhores das coisas. Em posição fetal, aninhados no cimento da varanda com olhos a meio-termo, sem ser preciso falar. Sem sair da varanda, fomos mundo. Até tímidos raios de sol onde me descobri com a cotovelada do Rafa

- Puto… onde está a miúda?

ainda enclausurado na mesma banda sonora que eu e ela, algures, de certeza também. Tive a sensação de concluir a sesta quando tudo e todos iniciavam o almoço. Assim justifico reconhecer-me em pele e o resto como desenhos animados; um constante movimento das coisas até que estas se desfaziam/renasciam que nem serpentinas, e ri-me até à dor de barriga porque não era Carnaval, sem o conseguir explicar ao Rafa, que se levantou e acendeu um cigarro de sangue-frio enquanto olhava o chão da varanda

- Sim, puto… mas onde está a miúda?

Sei lá, passou-se, respondi eu, a atirar qualquer coisa para o ar e por isso surpreendi-me quando ele

- Isso era bom; o mau é que a miúda ainda está passada

chamou-me e vimo-la na praia que nem a Estátua da Liberdade, com o arpão pertencente ao escritório do pai do Rafa, à vez de um facho de luz na mão direita. Foi desnecessário responder ao Rafa

- Não vai pescar, certo?

que saltou varanda até o areal enquanto o meu cérebro, por uma eternidade de tempo desaprendeu a andar. Não movi milímetro e mintam que foi tudo muito rápido, que sou capaz de descrever negativo a negativo. Apenas consegui correr ao susto de sirenes. Agarrei a droga, dinheiro, chaves do jipe e um boné do Rafa. Infiltrei-me na multidão que precisou da morte para fazer parte da vida. Sei como tudo aconteceu, excepto de onde apareceu aquela gente na praia. Vi homens a colocarem cobertores sobre os dois; um estendido numa maca, e no outro aos ombros. Um desses homens é que me disse qual o nome dela, embora não me visse nem ouviu

(- Isso era bom; o mau é que a miúda ainda está passada)

nada da minha boca, ouvi-o a ele

- A Maria vai ter que nos acompanhar

ao fechá-la num carro com sirenes parecidas às da ambulância onde desapareceu o Rafa, só de ténis fora do cobertor. Foi uma luta corpo a corpo, mentiu alguém. Foi uma luta droga a droga, não respondi eu, porque o primeiro objectivo foi esquecer mas depois esqueci-me como se faz isso.


quarta-feira, outubro 06, 2004

Horizonte

Ainda não percebi como entras na vida de alguém sem pedir

- Posso?

uma autorização, sem aguardar que te abra a porta, que assente com a cabeça e com a mão desenhe uma vírgula no ar a indicar-te o caminho

- Faça favor.

Atravessas o hall de entrada e não sabes se agora direita ou esquerda porque pelo único sinal de trânsito na parede é obrigatório ir em frente. Ris-te. Não devias. Mas ris como se fosse inverosímil atravessar paredes. Apenas rio porque te ris. Não ouvi

- Posso?

nenhuma campainha, clarabóia só na casa do vizinho, não há cá escadas de incêndio e podes ser a Super Mulher, mas não escalaste a conduta do lixo porque desde a germinação de pensos higiénicos na sanita das velhotas do rés-do-chão, o escorrega da trampa está encerrado. Mas ris como disfarce de quem não veio da parede.

Apercebes-te que cada coisa tem o seu lugar porque cada coisa fala

- Reservado

a ti
por mim
(falam-te de mim)

enquanto andas cá por casa distraída de pensar que te vejo, ocupada com um espaço onde te encaixes e não me perguntes a mim
(sei lá onde te encaixas)
nem aos cd’s no móvel e os que não cabem na gaveta, nem às molduras

- Esse lugar é meu

nem aos livros

- A Mimi do Sr. Lobo foi à mesa-de-cabeceira mas já volta

nem o teu sorriso a fazer confusão

- Olha que a Mimi é surda mas não é parva

(sei lá onde te encaixas)

impede-me ainda o teu passeio vai na sala que desista de resistir

- Olá, por onde andas?

- (…)

- Também estás em casa?

chamar-te sem surpresa no sim da resposta.

quinta-feira, setembro 30, 2004

Vida (Em) Comum (I)

1. Tal filha, mãe trocada

A minha irmã já não mora aqui. Cá em casa nunca ouvi a minha mãe em ataques de fúria capazes de desmoralizar um furacão. Nunca ouvi a minha mãe como ouvi outras mães pelas bocas dos meus amigos. «Imagina cordas vocais em máxima potência. “Pareces um espantalho” berrou-me ela, “Comigo é que não sais à rua assim”», queixava-se a minha prima Eunice, «”Assim” Jorge, “assim” percebes?», e eu percebi a coincidência com o dia em que ela decidiu fazer uma permanente ao cabelo e oxigená-lo e depois para não cansar tanto amarelo, pintou a metade direita do couro cabeludo de laranja. A tia Eulália não gostou. As duas – prima e tia para mim, mãe e filha entre elas – durante 3 meses não foram vistas juntas. E se o cabelo tudo levou, o cabelo devolveu tudo logo que voltou à cor normal. Porque a chantagem monetária na adolescência funciona às mil maravilhas: a mesada da Eunice emagrecia a cada levantamento no Multibanco. «Não é ao corte do cordão umbilical que ganhas direito sobre os fios capilares, porque nada no corpo que usas é realmente teu», explicou-me uma Eunice de catorze anos, estendida no azul do puff que tenho no quarto, «e só poderás comprar a pele que vestes ao ver os teus progenitores por um canudo». E na semana passada a profeta de vinte e três anos, de seu nome Eunice, realmente viu: formou-se em Filosofia – cumpriu-se o meu raciocínio de que tanta teoria desde miúda só podia acabar num curso destes – e cumpriu o seu próprio raciocínio, da teoria à prática: enrolou o diploma em tubo, encostou-o ao olho esquerdo, e lá mirou a tia Eulália pelo monóculo de papel. A seguir fixou-me como alvo enquanto repetia, «Jorge por um canudo, Jorge por um canudo», e com a continuação da cantilena; «capilares à vista como o arco-íris, como o arco-íris», entrevi durante estes meses a Eunice a tomar café na pizzaria do Sr. Fernando como sempre, em horário diferente da minha tia, como anos atrás.

2. Namorada de amigo meu não é homem, temos pena

Eu e o André não nos importamos que a minha prima se sente na nossa mesa. Ela é parte da nossa mesa do café. O André conhece a Eunice há tanto tempo quanto eu. Moram porta a porta, que é como quem diz lado a lado. Conhece-a melhor que eu, em determinados aspectos. Mas esses “aspectos”…passo à frente. Além da consanguinidade, sempre preferi as miúdas com cabelo de uma cor só. O André ainda mora no bairro – ao contrário da minha irmã que já não mora aqui –, naquela porta verde mesmo em frente a esta; é o meu melhor amigo, só depois meu vizinho. É com quem partilho desde puto os cd’s e partilhávamos as miúdas, mas as miúdas não ao mesmo tempo. E hoje em dia nem em tempos diferentes há partilha. Como diz a Eunice, «Já não são macaquinhos, são gorilas na cabeça», e se antes ele dava um beijinho onde eu tinha dado um beijinho, agora nem quero pensar que “ele” deu um beijinho – na melhor das hipóteses – onde era “eu” a beijar. Um gajo pensa logo no quando “eu” e “ela” estávamos não-sei-onde, a ouvir não-sei-quê com o sentimento x, até que ela disse y porque conheceu o z – que pode ser qualquer um mas nunca o nosso melhor amigo. Porque o melhor amigo não é qualquer um. Porque aí não há discussão possível – é corte mais rente do que observar os pais por um canudo. «São uns sacanas de uns românticos armados em "playboys”», cataloga-nos a Eunice nas nossas conversas de café.
3. Mudam-se os tempos, mantêm-se as fugas de casa mas depois manda-se um e-mail

Na verdade, não acredito que as mulheres sejam mais complicadas que nós. A minha mãe concorda comigo. Também eu tenho um rótulo para ela: “Mãe flower power”. Gosto. Gosto de a ver onde ela tem a minha idade. Nas fotos. Sempre com decotes em v. Descasava estrategicamente os botões a insinuar a falta de soutien, e até nas blusas ela conseguia criar um decote. E outro v; de indicador e dedo médio esticados na mão, na companhia do seu sorriso “peace” e óculos à John Lennon a rematar. É das mulheres mais bonitas que já vi. Acho que a verdadeira discussão que ela teve até hoje foi com os pais. «Jorge, aos vinte e dois anos não és nenhum mentecapto e eu também não o era. E se os pais têm sempre razão porque são os pais, então só tens duas hipóteses: monólogo ou discussão. Não suporto chantagens e esta atitude abrange uma das piores que conheço; chantagem emocional, Jorge. Quanto a monólogos já cada um faz o quanto baste na sua cabeça. Sabes que gosto da controvérsia e se roçar a polémica ainda melhor, mas os teus avós eram incapazes de discutir pelo dialogar. Os teus avós não percebiam e nem tinham que perceber e eu também não. Arrumei a trouxa e agarrei na guitarra, fiz um telefonema para a tua madrinha que na altura vivia em Madrid, apanhei um comboio e mudei de casa.» “Mãe flower power”, sem dúvida. «A única chatice é que houve uma greve qualquer nos correios e passado um mês o teu avô teve que entregar a carta que lhes enviei, na ala das mulheres do Hospital de Santa Maria onde a tua avó estava internada. Mais tarde visitei-a e preferia esquecer os olhos horrorizados das outras velhinhas quando a minha mãe fez as apresentações. “Foi ela que quase me matou”, disse a tua avó.»

4. Quem canta, os seus filhos pode espantar

A Eunice é fã da minha mãe e define a minha irmã como um bolo: «A Sílvia é um bolo que encaixa na forma, percebes? Estudas, arranjas parceiro, manténs o parceiro, esqueces porque manténs o parceiro mas manténs, tiras o curso, casas, compras carro, casa, um cão, um ou dois putos e só então divorcias-te.» A Eunice dá sempre por terminada uma observação sobre a minha irmã através de uma tossidela, que é a sua maneira de gozar da Sílvia. «Eunice, não há maneira de passar essa tosse?», pergunto eu. «De vez em quando uma pessoa engasga-se, ou engasgamo-nos com uma pessoa. Escolhe tu. Em ambas as hipóteses o resultado é sempre tosse, primo», diz ela. E ultimamente a Eunice engasgou-se imenso cá em casa. «Olha filhota, e porque é que não aprendes outra língua, faz um curso de fotografia, uma viagem e experimenta viver dias num outro país, cultura, mentalidade», disse a minha mãe várias vezes, numa tentativa de evitar um ataque ao comprimidos, por parte da minha irmã que aos vinte e seis anos não aguentou ser reincidente nos professores não colocados. (A Eunice tossia.) «Mãe, a mania das florzinhas e dos lenços na cabeça e lemas batidos como “Make peace not war”, desculpa a desilusão, mas não se manifesta nos meus genes», disse a Sílvia. (A Eunice engasgava-se.) Mas à pouco a minha mãe foi curta: “Sílvia, orienta-te.” E a Sílvia mais curta foi e orientou-se. Fechou a porta de casa, depois ligeira abriu novamente e apenas disse: “Vou-me casar”. Bateu segunda vez a porta e portanto a minha irmã já não mora aqui. Neste momento, a Eunice ainda sofre o maior ataque de tosse da sua vida enquanto rebola na carpete da sala. Agora chega-me o André a casa e não percebe nada e encolhe os ombros e ri-se. A minha mãe não tomou medicamentos. «Jorge, isto é tudo por modas; já foi o stress, depois brotaram sobredotados e agora crianças hiperactivas. Superei tudo sem calmantes», disse-me ela. Depois deu largos passos, precipitou-se em direcção ao quarto e ainda lá está, a acalmar-se. Por toda a casa ouve-se uma guitarra e a voz da minha mãe em sintonia na desafinação:

“kum ba ya, my lord, kum ba ya
kum ba ya, my lord, kum ba ya
kum ba ya, my lord, kum ba ya
oh lord kum ba ya.”

sábado, setembro 25, 2004

Os Meus Dedos às Cócegas nas Tuas Cordas Vocais

Ao Mickey, entre a loira líquida e a gargalhada de uma morena no Reduto


Não pedes com licença ao mundo antes de fechar a porta; desapertas a gravata, o nó na garganta, as chaves e o troco que descansem onde calhar que amanhã logo lhes tiras a paz. Atiras-te à cama e pensas em tudo que é como quem diz não pensas em nada, ou melhor dizem-te porque

(a tal estória dos meus olhos aos olhos dos outros)

o telemóvel tem voz

- Dez e meia, apanho-te

e é o teu melhor amigo e por ser o teu melhor amigo não é possível (fingir) não te compreender

- Vais ficar em casa?

não desistir

- É sexta-feira, noite de sexta-feira

não pensar antes de

- Aconteceu alguma coisa?

empurrar-te para a confusão da rua

- Vai todo o pessoal

onde todo o pessoal são sorrisos que te contagiam, histórias da carochinha com bolinha vermelha que só hás-de contar aos netos, os brindes que levas a sério por compreender que
(- Pessoal estranho)
não têm nada de sério e por isso não é possível que o teu melhor amigo diga

- Vais ficar sozinho?

que a solidão está no quarto, como se a solidão tivesse pés próprios e não precisasse do teu corpo para hospedeiro.

Não pedes com licença ao frigorífico depois de abrir a porta; assaltas restos de comida, o pacote de leite à boca enquanto a bexiga enche-te e sabes que quando fores à casa de banho, a cozinha não fica solitária.

E de vez atiras-te à cama e pensas em tudo que é como quem diz
(não, dizem)
não pensas em nada, nem no teu melhor amigo

- Aconteceu alguma coisa?

que por ser o teu melhor amigo consegue (fingir) compreender que não és tu quem afunda nos lençóis mas o mundo armado em parasita no teu fundo, aos pontapés, sem pés
(roubou-te os teus).

Puxas o fio do candeeiro e apagas a luz do Mundo; sem boa noite aos candeeiros lá fora, nem aos faróis solitários na estrada que iluminam o mundo.

(It’s oh so quiet)

Mil novecentas e oitenta e quatro voltas na cama

(It’s oh so still)

nenhum carneiro contado

(You’re all alone)

uma reza muda onde avisas
o mundo a voltar a ser mundo
e o Mundo apenas o teu quarto, e amanhã a confusão de uma rua.

(And so peaceful until)





quarta-feira, setembro 22, 2004

Os Amantes Sem Lençol no Rosto

A culpa não é tua por tudo isto estar a acontecer: o teu grande amor à distância de um hall de entrada. Vai para mais de dois meses que sais de casa a esquecer beijos de despedida. Levas a esperança que o elevador ganhe telepatia contigo e depressa, para que não o partilhes com os novos vizinhos: um casal (até) simpático, em que só reconheces os pés dela porque cravas os olhos no chão, e quanto a ele, é gordo, murmuras.

Depois o dia perde-se de vista e percebes que o mundo é mais que o chão. Não há elevador. Não revês os pés dela. Não vês o teu novo vizinho
(gordo)
a entrar elevador adentro com o que foi, desculpa, com o que é o teu grande amor, na mão dele. Enfias-te dentro do quarto com a noite. Perto da meia-noite, mais tic, menos tac. Enches o copo com whisky e chega. Há que séculos apetece-te puro – vai para mais de dois meses –; sem água, não interessa se líquida se gelo.

Relaxas quando chega a hora em que ela volta a ser tua, não o grande amor do gordo. Sopras o pó inexistente e metes a cassete no vídeo, desencantado na dispensa, no dia em que o conheceste a ele
(- É gordo)
e reconheceste a cara dela no hall de entrada.

Agora carregas no PAUSE; deixa-a assim: aprisiona o teu grande amor no ecrã de plasma com um aceno na mão, numa qualidade de imagem a acusar uma dezena de anos, enquanto procuras o comando da aparelhagem. Não finjas que não te decides pela música. Afundas-te noite após noite com o sol-e-dó que partilharam a quatro ouvidos
(nenhum deles do gordo)
vezes sem conta que és capaz de contar.
(Nenhuma dessas vezes existia um gordo.)

Que importa se a música tem o timbre da gargalhada dela e pões-te a sorrir, ou se procuras na película ao menos três imagens onde ela prometeu um para sempre. A culpa não é tua; culpa o gordo, o governo, o sistema, o destino, a sorte malvada ou a ironia ácida da vida. Mas a culpa não é tua se em dois meses de manhãs o teu grande amor antes esquecido, desculpa, não esquecido na fita de uma cassete, ultimamente não falha a porta em frente à tua, como um relógio que à hora certa manda o cuco cá para fora.

Deixa o telemóvel desligado na mesa-de-cabeceira. Deixa bem perto a ti o cinzeiro porque fumas sempre muito durante a sessão de vídeo, além do cigarro antes e do cigarro depois. Deita-te na cama, estende os pés e não tires os sapatos porque as pessoas quando observadas num ecrã não se importam. Não atices nenhuma luz, nem a do candeeiro. Deixa assim; apenas o halo que se apresenta no quarto, agora que trocas dois riscos do PAUSE por uma seta no PLAY: primeiro ela continua a acenar, depois ris-te e ouves três
para sempre passados
talvez porque o rosto dela no elevador incrimina dez anos após essas filmagens mas pode ser o ar ensonado da manhã.

Entretanto o filme avança e sempre de modo igual e isso dá-te uma segurança, entediante, mas acima de tudo uma segurança. E no fundo a mim também vai para mais de um mês, desculpa, mês e meio, que chego a casa na certeza de que perdi o FIM. Porque é tudo tão previsível como o amanhã onde partilhamos o bom dia com os nossos vizinhos, voltas a esquecer o meu beijo de despedida enquanto murmuras
- É gordo
aos pés do teu grande amor
e volto a confirmar-te
que não o é
não é gordo
volto a confirmar que não é gordo através de um sorriso cúmplice
(correspondido pelo gordo que não o é)
vai para mais de mês e meio. Mas a culpa não é tua, amor; são os teus olhos que teimam em cravar-se no chão do elevador.


CARPE DIEM

O telefone está a tocar mas não vou atender. Dispo o sorriso robótico do dia-a-dia e meto-o debaixo do braço. Aquele sorriso com que

- Hallooooo!

peço passaportes enquanto anoto nomes de países e pessoas que nunca sei pronunciar. Os piores são apelidos asiáticos, embora ontem ficasse grega com a chegada do grego

- Yiannis Karatzas Kazantzakis

ao mesmo tempo a francesa do focinho arrebitado, a queixar a falta de papel higiénico, e lá entreguei um rolo tamanho gigante de mão para mão, negando a vontade de o enfiar pescoço abaixo e

- Hallooooo!

o telefone pela enésima vez a tocar. Como agora. Só que agora não vou atender. O dono da pousada

- Maurizio

agarrou as chaves penduradas na recepção, meia volta volver coçando a careca, os óculos demasiado escuros que nunca sei para onde olha, nem reparou que o sol já derreteu no horizonte. Saiu nem dez minutos atrás, a lançar dois beijos que nunca sei para quem são mas

- Hallooooo!

ainda demora a volta da carrinha, azul, uma lua amarela assinada por baixo, letras a itálico
(“Carpe Diem” – the hostel in Brindisi – Italy)
como que
(“Carpe Diem”)
a gozarem comigo e que me digam que não, que não é nada disso mas não me levanto. Não ouço telefone nenhum lá dentro a tocar. Deixo-me sentada nas escadas e fecho os olhos, primeiro com muita força
(depois lembro-me que posso ficar com rugas e que me digam que não, que)
a seguir fecho-os demasiado devagar. Concentro-me nos sons cá fora; uma campainha de bicicleta na estrada, o rafeiro do cão coxo

- Pavarotti

que parece tossir e não ladrar, a portuguesa com headphones a bater o lápis no caderno como se ouvisse

(-Pixies)

uma sinfonia de cigarras, a rodeá-la na relva, como que
(“Carpe Diem”)
a gozar comigo e que me digam que não, que não é nada disso mas sou surda ao telefone. Se me esforçar o suficiente talvez consiga não ouvir a música. Todo o dia, vezes sem conta, o mesmo

- Numa numa yey, numa numa yey

romeno, dizem-me, e eu acredito porque sempre falei inglês. Só falo inglês. Quando cheguei à Europa fiquei estupefacta por quase todos falarem inglês. Na América poucos arranham outra língua; talvez

- Oui

ou

- Gracias

mas não diálogos; de onde és?, amanhã vou para “não-sei-onde”, não esta gente de mochila às costas; a saber onde são os chuveiros, quanto custa o dormitório, se tem curfew ou não tem check-out. E eu respondo de sorriso

- Hallooooo!

programado como um robot. Mas agora simplesmente não atendo o telefone nem me peçam café, logo aqui com

- Expresso

o vício do café, o Prego sempre a seguir o Grazie e eu só falo
(ainda)
inglês, e por isso consegui trabalho aqui, em Brindisi. Uma pousada numa área habitacional, colunas em constante berraria

- Numa numa yey, numa numa yey

e uns vizinhos que não se queixam
(como não me queixei quando cá cheguei)
perante a constante entrada e saída de mochilas às costas, ferries amanhã para Corfu, Igoumenitsa, Patras mas
(amanhã)
enquanto a espera, relaxam por aqui. Logo aqui com

- Expresso

a carrinha que os apanha junto à estação, é sentar em bancos gastos e não se queixam
(como não me queixei quando me sentei)
enfeitiçados por letras a itálico, pelo azul que os chama e que me digam que não, que quando cá cheguei eram daqueles tempos
(“Carpe Diem”)
tempo em que lia o talão do Multibanco com depósitos dos meus pais, e sorria para a lua ainda amarela pintada na carrinha, tão amarela como a cor dos faróis, que agora noto no portão da pousada enquanto eu
(ainda)
aqui sentada e o telefone não parou de tocar. Inspiro bem fundo. Levanto-me. Ainda não tenho dinheiro suficiente para voltar a Los Angeles. Sacudo o braço esquerdo, e visto os lábios com o sorriso robótico.



Brindisi, 27 de Agosto de 2004

sábado, setembro 18, 2004

Musa Não Tem Masculino (ou Tomate Não Tem Plural)


A ti, sem porquê


Um dia não sonhei beijos em sapos para tropeçar num príncipe.

(Não foi exactamente assim.)

Uma noite não estava em casa, haviam copos e amigos, muitos ainda não conhecia, alguns estavam entre ele, quais não me lembro mas não esqueci

um beijo

e no dia seguinte

(agora sim, de dia, sábado ou domingo, o café na Marina cheio de sol, uma mesa recheada de raparigas que apontavam com os olhos a cadeira em frente à qual tinhas combinado sentar)

com um riso ao ataque dentro de mim, entregaram-me

um príncipe no sapato

(ténis, estavas de ténis)

e durante um ano e tal, a certeza de que haviam muitos sapos porque não tinha vontade de os beijar. Mas houve um dia em que o príncipe não virou sapo. Continuou príncipe. E ouviu com

- Já não sinto o mesmo

o sorriso a fraquejar

- Porquê?

(ainda assim daqueles sorrisos que quando acordam, dás por ti a sorrir também)

na despedida que ainda hoje faz-me sentir analfabeta, um chumbo de volta à primeira classe com as vogais, quem sabe reconquistar as consoantes

depois

anos depois

- Porquê?

perceber que existem musas e não musos e à falta de inspiração

(queres dizer justificação)

perceber que na primária contam cinco sentidos, não o sentido sem sentido

(queres dizer sentimento)

que ainda hoje

- Porquê?

se soubesse porquê tinhas os meus dedos colados no teu sorriso e não o deixava adormecer. Como num ontem. Ou num hoje. Ainda hoje. Ainda príncipe. Ou fosses sapo.





quinta-feira, setembro 16, 2004

Não Deixaste as Tuas Asas em Casa

“O mundo é atravessado por anjos honestos e desonestos; por vezes parece até que os edifícios são seres urbanos móveis e com vontade concreta. Um edifício caiu.”

Gonçalo M. Tavares in A máquina de Joseph Walser


É sábado e ela acordou cedo. Corre o corpo adolescente pela rua principal do bairro. O mundo é um lugar estranho, sussurra-se. Das janelas dos prédios brotam cabeças humanas como se fossem cogumelos.

Aos ombros leva um par de asas, brancas. Pondera-se se roubou-as a um unicórnio, tal a irrealidade da imagem que amputou pessoas de camas. É manhã, os carros estáticos, uns pés fazem eco pelo bairro como se movidos a energia eólica. Leva o vento no corpo, alguém responde. Acendem-se cigarros, ouve-se chamar mãe, filhos, avó, dois cães e um gato. Não parece sábado porque o bairro tem a energia das manhãs de dia de trabalho. Varandas e janelas apinhadas. Cravam-se olhos numa rapariga, a trepar as escadas de incêndio do prédio amarelo. Escolheu o menos alto, pensa-se sem o dizer.

Atingem o cume do edifício: a multidão de olhos e a rapariga. A rapariga sobe ainda mais alto: senta-se no que aparenta ser uma parabólica. Há um riso frenético, surge no cimo, e percebe-se que contem o mundo todo lá dentro. Ela vira as asas para a rua principal. Já ninguém lhe vê a cara. Estica pernas e abre os braços. Até os cabelos lembram o Cristo na cruz mas peca por ter asas, gigantes e frágeis que parecem coladas a cuspo. Grita-se do prédio amarelo contagiando assustadoramente as gargantas da população, como quando alguém boceja à nossa frente. A rapariga salta. O eco do bairro agora é feito de dezenas de pés a entrar em casa, descem escadas, abrem-se portas de prédios; a rua sofre assalto pela multidão que dispara alarmes ao acordar os carros, antes estáticos. Trocam-se empurrões. O prédio amarelo é circundado, enquanto se repete que o mundo é um lugar estranho.

Encontram as asas do corpo humano que proporcionou o acordar enérgico, e é sábado. Surge o pasmo, denunciado por oh!, ah!, e risos. O mundo não é um lugar estranho, nós é que o estranhamos, alguém escreve. Cala-se a multidão. Os risos da rapariga enfraquecem, enquanto adormece deitada num trampolim na traseira do prédio menos alto. Porque hoje é sábado e ela acordou cedo.


quarta-feira, setembro 15, 2004

Somewhere in London

Madrugada: duas e dez e não acerto o relógio à hora local. Árvores de um lado da estrada. Casas brancas do outro. São todas brancas. Imensas casas onde tabuletas exibem a mesma palavra: “Hotel”.

Quando o Lee perguntou se queria dividir o táxi nem hesitei. A mochila de repente a pesar uma tonelada e o corpo a pedir

- Hostel? No problem, man

descanso, cedendo às mais de 24 horas de vigília.

A conversa fluiu e a última viagem da noite, entre Dover e Londres, com três mudanças de comboio, tornou-se suportável. Claro que ele não falava português, apenas

- Frango

uma palavra apreendida, não sei porquê, por um amigo dele que montou tendas em Lisboa

- Rock in Rio, man

enquanto ele foi destacado para outro espectáculo. Percebi Copenhaga mas não o confirmo.

O que o Lee faz durante bastante parte da sua vida é montar tenda. Em festivais. Tem acesso aos bastidores, por erguer estruturas metálicas e arquitectar palcos de grandes dimensões; assim ganha o pão do dia-a-dia
(bem como o amigo ganha
- Frango)
e trava conhecimento com as bandas após o concerto
- Metallica! I’ve met Lars, man.

Remediei como pude o seu desconhecimento na nossa língua. Eduquei-o com todo o calão que me ocorreu: apanágio entre dois rapazes de nacionalidade diferente que se cruzam. Sou incapaz de deixar um rapaz montar tendas Europa fora, com aquela única palavra

- Frango

de possível tradução não muito máscula na língua do Shakespeare. Em troca, ele descreveu-me o seu bairro

- Somerset

algures no sul de Inglaterra. Contou-me que de Londres até casa era só apanhar um autocarro qualquer. Depois seguia a pé. Porque onde vive

- Somerset

os transportes param às 20h.

Pareceu-me um rapaz normal. Acima da temperatura que associo aos ingleses. Acima do frio. Não tinha escapatória ao sotaque british – um pouco efeminado na minha opinião – mas não o associei ao sóbrio e conservador gentleman. Mostrou-me a namorada, amachucada na foto moldada a um dos bolsos laterais das calças, com uma típica

- She’s always changing the colour of her hair

conversa de amigos meus. Como quem muda de temperamento?, perguntei, e partilhámos gargalhada com

- Like all the women

a resposta.

Depois disse-lhe que precisava descansar. Saí de Lisboa ontem à tarde. Cheguei a Paris e só visitei a Gare du Nord, onde apanhei novo comboio até Calais. Queria atravessar o Canal da Mancha. Tinha que o atravessar. Ninguém chega à Escócia de ferry sem atravessar o Canal. Nem alguém chegou à Escócia de comboio sem, infelizmente, atravessar Inglaterra e muitas vezes, ter que parar aqui. Em Londres. Por pensar em parar, lembro-me de frisar que queria uma cama. Uma pousada.

- Hostel? No problem, man.

Já percorri o quarteirão todo. De quando em vez passa um carro na estrada. Ou um táxi, tipicamente inglês. Acrescento novo item à minha lista intitulada: “Porque é que os ingleses são diferentes em tudo, não é uma pergunta”.

Lee conhece melhor do que eu, a capital onde o chá reina sobre o café, assumi. Sou o “Englishman in New York”, ou melhor, o “Portuguese in London”, pensei, enquanto ele e o taxista conversavam em amena cavaqueira como se se conhecessem desde miúdos. Ainda que o volante, no lado direito – item número quatro da lista –, estivesse entre mãos com articulações empenadas o suficiente, para serem quer do meu, quer do avô dele.

Só leio “Hotel”. Recusaram o euro (ler a minha lista) mas toda a gente é capaz de converter pounds e assumir que Londres é possivelmente a cidade mais cara da Europa. A mochila já não pesa uma tonelada. Aposto nas duas ou três. Certifico mentalmente de que expliquei a minha necessidade quando o Lee

- Hostel? No problem, man

entregou-me este gatafunho que sinto vontade de esmagar com uma mão só. Parece-me ser a sua noção de um croquis.

Esmurro a minha companhia: a mochila. Não tem culpa do não avanço até à Escócia. Somos dois sem abrigo, à força. Estacionados à soleira de uma das casas. Brancas. A estação está fechada. Abre às 05h. Possibilita que o que eram os meus pés, no agora são blocos de gelo. A madrugada é fria. Da mesma temperatura que sinto perto de um perfeito gentleman. Árvores do outro lado da estrada. Nenhum “Hostel” à vista. Um e outro e mais um e ainda outro “Hotel”; sem S depois do O. E o Lee

- Hostel? No problem, man

a esta hora em Somerset. Uma rapariga para o receber de cabelo lilás ou verde fluorescente, ainda assim mais quente

- Like all the women

que a soleira desta porta; descrita por dois adjectivos: fria e branca.

Começa a chover. Atiro à estrada uma folha de papel, na esperança que se desfaça o que se assemelha a um gatafunho de criança. Um traço horizontal imita a estrada. Linhas verticais de um lado e o que imagino serem casas do outro, em forma de rectângulos. Observo chuviscos desfazerem tinta e o papel. Já só percebo um “mailto:“leequalquercoisa@hotmail.com”; a única prova de que alguém garantiu existir um

- Youth hostel, I know man

nesta rua.

São duas e vinte e não preciso de acertar o relógio à hora local. Espanto-me. Não anoto na lista. É a mesma de Portugal. Onde encontro pousadas e uma cama num “Hotel” não está pelos olhos, nariz, boca e mais o resto da cara. A hora é a única coisa que me é familiar de momento. Grito:

- Lee we’ve got a problem. Man!

Londres, 12 de Agosto de 2004

sexta-feira, setembro 10, 2004

Inter Rail

Abres os olhos e outra vez aquela sensação de tentar perceber onde estás; endireita as costas, espreguiça-te e boceja à vontade, a cabine do comboio cada vez mais nítida, agora mais uma pessoa aí contigo

(adormeceste à saída de Santa Apolónia, na janela o dia perdeu-te de vista, estação menos estação deve ter entrado em Vilar Formoso)

outra mochila tão grande como a tua, uma rapariga jogada no banco em frente, o Bob Marley da t-shirt amarrotado até aos lábios enquanto os lábios dela
(parecidos com os teus)
a lamber de certeza segunda ou terceira mortalha, o cheiro a erva não engana, a conversa

- Portugal é campo

não engana se olhares as terras espanholas pelo vidro, o vermelho a ganhar terreno ao branco dos olhos dela
(castanhos como os teus)

mas não mordas o lábio nem te rias porque

- Enquanto dormiste fui mijar e quando o comboio parou fiquei com as calças na mão

dois anos atrás o comboio também parou, contigo na casa de banho a reler o aviso da porta: “Não utilizar durante as paragens nas estações”

logo não mordas o lábio nem revires os olhos porque

- Fiquei naquela; mijo, não mijo

ainda agora passaste as pálpebras pelas brasas e mesmo assim estás mais arrebitada que ela
(realmente parecida contigo)
sem vírgula cicatrizada no queixo, por outro lado o cabelo comprido também quase negro
(realmente faz lembrar)
não esqueças

logo de manhã chegam a Hendaya, pedes-lhe o número, explicas se ela responder que

- Não trouxe o telemóvel

logo de manhã, imaginas alguém a entrar-te no quarto, a encontrar na estante o teu bilhete de identidade esquecido
(de propósito)
no propósito de durante um mês não provares quem és
(apeteceu-te)

por isso não te esqueças: basta pedir-lhe o número do BI, e se o teu nutre-se de pó em casa, depois percebes que no agora tens outra pessoa aí contigo
(realmente parecidas, podiam confundir)

duas raparigas
em que tu és tu, mesmo sem bilhete de identidade
(anota o número do dela)
e logo de manhã continuas o itinerário com um retalho marginal em ti
porque apeteceu-te esquecer de ti
e ela também; adormeceu sem te dar boa noite.


Lisboa, 10 de Agosto de 2004

segunda-feira, agosto 09, 2004

Amanhã Sei Onde Não Estou (Four)

she scratches a letter into a wall made of stone
maybe someday another child won't feel as alone as she does

Vedder, Ament; Why Go


Quem olhasse o seu corpo por detrás, ficava na dúvida se era rapaz ou rapariga. O cabelo devia de ser castanho ou preto, a confiar na cor das sobrancelhas. Mas nunca tive a certeza: usava constantemente um gorro, daqueles que parecem um preservativo enfiado na cabeça. Por isso, para mim o seu couro cabeludo será sempre tricolor; branco, preto e um pompom vermelho.

O meu trabalho era simples, tão simples que eu próprio me denominava como o pombo-correio de serviço. Não tinha cartas lacradas no carrinho de metal. Todos os envelopes eram revistados antes do pombo (eu) debicá-los em camas, onde se aninhavam adolescentes (como eu). A diferença entre mim e eles: um dia viravam pacientes e eu virei pombo – a minha necessidade era arranjar dinheiro e tirar a carta de condução, como um mais um igual a dois. As necessidades deles, muitas vezes, não eram tão matemáticas.

Mas há camas que não se esquecem. Nem esqueço que até hoje não sei o tom do cabelo daquele corpo; a dormir no lençol que recebia carta sempre à segunda-feira.

A enfermeira-chefe contou-me que aquele quarto era já ocupado para mais de dois anos. As visitas dos pais cingiam-se a duas datas específicas: o dia do seu aniversário e o dia 25 de Dezembro. Mas nesse ano não se deu esta última visita. Sei-o porque o nosso contacto durou aproximadamente um mês; fui contratado no início de Novembro e quando lhe deferiram alta, já saiu com a árvore de Natal à porta do hospital psiquiátrico.

A dada altura, já sabia duas das três coisas mais importantes da cabeça que usava um gorro tricolor: as cartas eram dos pais, e os pais não vinham com as cartas às segundas-feiras porque nem todas as segundas é Natal, nem se faz anos.

Lembro-me perfeitamente da primeira e única vez que o pompom vermelho virou-me as costas e vi-lhe a cara. Estava como sempre ao pé da janela e eu pousei na cama uma carta porque era segunda-feira. No dia seguinte, iria para casa porque tinha tido alta e eu sabia, e deve ter notado porque quando ia a sair do quarto, murmurou:

- Não vou lá ficar muito tempo.

Parei. Virei-me para perguntar se planeava fugir de casa. Riu-se. Virou-se também e suspirou e disse:

- Como posso fugir de um lugar de onde fui expulsa?

Foi aí que soube a terceira coisa importante: era rapariga, e só uma rapariga podia fazer-me desejar que morássemos no refúgio de uma segunda-feira.




quinta-feira, agosto 05, 2004

Charivari

“Há 15 anos que não tenho 15 anos e não tenho pena nenhuma. (…) É a idade em que parece haver qualquer coisa contra nós. O que é concretamente? É o mundo inteiro. Ou melhor: é o mundo inteiro com a insidiosa colaboração dos pais.”

Miguel Esteves Cardoso, Os Meus Problemas



Se a minha mãe soubesse nadar vinha connosco à praia, todos os dias menos hoje. Hoje não; não ia querer, nem podia evitar o cheiro a éter esta tarde, enquanto ela a afundar no couro de uma cadeira pelas palavras do médico

- Se a dona Mariana quiser o nome popular, digo idade crítica

esta balbúrdia que sei lá como vai o meu pai explicar, talvez

- Mariana, deu-me um calor quando vi aquele braço peludo

o sol é o holofote da praia e percebo-o agora; a sentir mais do que nunca uma plateia num pavimento de areia, ao mesmo nível que nós, o areal esgotado com espectadores em trajes menores, sem fato de gala e a comer gelados, a fumar, a rir e a murmurar porque após o chinfrim, surge agora o projector solar virado para nós

(Ao menos deram-te o papel de protagonista na sequela: “três homens e uma rapariga”; take 1. Acção.)

dois homens e uma menina porque o rapaz que não está com boa cara, tem idade para ser filho do meu pai
(ou do meu tio, mas o meu tio é um playboy e esses fazem sempre por gosto sem fazer o filho)
quanto a mim, quanto mais pequena melhor, não me importo se afundar como de certeza a minha mãe com o médico

- Se a dona Mariana quiser o nome do período da vida, digo climatérico

sumir na areia entre o meu pai e tio, empurrada pela vergonha movediça e não me importo se encolher, menos um ano e mais outro e de uma vez uns três, até o tamanho registado da primeira vez no bilhete de identidade, e não da segunda - ainda anteontem na Loja do Cidadão, quando a rapariga que agarra o rapaz também lá estava, na altura que a mulher

- Um e sessenta e três, e não faças essa cara porque eu aos quinze anos parei no meu metro e meio

a renovar o documento, eu e a rapariga
(o rapaz nunca tinha visto nem mais magro nem mais gordo)
tenho a certeza de que
(o meu tio já a reparou e o meu pai a pensar como explicar-se, talvez
- Mariana, deu-me um calor quando vi aquele braço peludo)

é ela, a olhar-nos com nojo, o mesmo nojo quando anteontem esmagou a impressão digital e desvairou com o dedo carimbado e

- Que horror

enquanto a mulher a mim

- Um e sessenta e três, e não faças essa cara

registava a altura no bilhete de identidade.

Se o tio não fingisse tão bem palmadinhas nas costas do meu pai, na minha frente e

- Deixa a miúda em paz com os amigos

nova palmadinha mas eu já não estava lá, talvez

- Agora vamos nós passear pela praia, quem sabe descobrir a nossa menina

eu e os meus amigos não parávamos o jogo de vólei, a seguir o homem dos gelados sem apregoar os cornettos, uma avó desolada porque quando os netos finalmente comiam as sandes de ovo levantaram-se, de repente um exército em fato de banho numa marcha desenfreada, na direcção de uma tempestade de areia sem vento, um rapaz sem boa cara porque com um olho esquerdo que já não vê nada, roxo, tão roxo como a cara do meu pai, que me confundiu a cintura com a da rapariga da Loja do Cidadão, antes envolvida pelo rapaz que depois de levar com um soco tem a sua razão para não estar com boa cara, o tio prestes a sofrer um ataque de riso e o meu pai não se apercebe, não ouviu

- Que horror

nem viu nada além de

- (…) aquele braço peludo

uma cintura de rapariga que não a minha com o braço do rapaz, a olhar-me pelo olho direito e a falar com o olho roxo como se fosse

- Um e sessenta e três, e não faças essa cara

um raio a desfazer-me molécula a molécula com uma vontade
uma vontade de não ter quinze anos que a minha mãe não percebe, nem vai perceber o meu pai

- Mariana, deu-me um calor quando vi aquele braço peludo

não ela sempre com os calores que para perceber precisa do médico

- Se a dona Mariana quiser simplificar, digo menopausa.




sábado, julho 31, 2004

Nuvens Laranja e Violeta; Não Parece o Dia Mas Já Não é Noite

Atravessaram a ponte vermelha porque ela não vive na margem sul, ele sim. E foi ele rapidamente a soltar a rolha da garrafa, que rolou pela mesa da cozinha, que pintalgou manchas de tinto no azulejo branco do chão. Foi também ele a apanhar a rolha enquanto ela agarrou a garrafa; fez-se de casa, encheu dois copos e propôs o brinde: a ti.
Não foi ele a substituir o singular do pronome, por um plural, pelo “nós”. Ela não o fez nem ele o podia fazer: existiam na terceira pessoa
ele, ela
possuíam-se na segunda pessoa
tu, ti, contigo
sentiam-se na primeira pessoa e apenas no singular
eu, mim, comigo…
Não sentiam a posse que vem pela existência do nós. Não sentimos, mas Sinto e Sentes; o que é uma grande diferença mas não é comum.
Sossegaram na varanda, nas duas cadeiras vermelhas e maleáveis que balançavam, como o vinho nos copos e com o sol a minguar. Sem um único desviar de olhos, sem que um único vestígio do tinto escapasse à saliva – nem ele, nem ela paravam de humedecer os lábios com a língua – fixavam vidros em frente assinalados por riscas brancas; típico das janelas de um prédio em obras. Mas foi a língua dele que caçou uma ideia, solta, e formou-se um arquipélago de frases:
“Se o prédio em frente fosse já habitado e de repente, alguém me visse despir-te da cintura para baixo e sentar-te em cima de mim, poderia considerar a minha atitude agressiva.”
Ela acendeu um cigarro e não olhou para o fósforo, nem para ele e disse:
“Não está ali ninguém.”
“Então, não seria agre.. Não é agressivo”, sugeriu e depois virou-se e tentou fixá-la com o olhar.
“Disseram-me que era… Achas-me agressiva?”
“Não. Directa. Por vezes sinuosa e não é um contra senso.”
“Sou da estirpe agressiva que se derrete com nuvens laranja e violeta”, riu-se e esvaziou o copo.
E algum tempo depois – menos tempo do que ele levou a soltar a rolha da garrafa – não sossegaram de frente a um prédio porque na parede em frente à cama dele, havia um espelho que os emoldurou enquanto entraram um num outro e ele disse:
“Agora derrete. Menos líquida, mais húmida. Eu quero ver. E depois ver-te a ver. E não me vir ainda. Olha-te a ti e não ao espelho. Contorces o pescoço à esquerda se te agarro os cabelos no pescoço. Olha-me ali. Até teres mais prazer. E não vais pedir para me vir; pede o prazer de me veres o prazer.”
Já não vale a pena falar em tempo, certo é que acabaram por fechar os olhos, enroscaram-se como embriões mas não podiam ficar ali nem nove meses, nem nove horas. Existiam na terceira pessoa
Ele
colocou o alarme para as 05:30
Ela
levantou-se às 06:05 e ele torceu o nariz por tocá-la vestida às 06:10.
Falaram ensonados
(em vozes de sono que não se esquecem)
o tempo todo dentro do carro, não do todo mas no
eu, tu
mim, ti
comigo, contigo…
E voltaram a atravessar a ponte vermelha porque ele vive na margem sul, ela não. Enquanto aquela noite se derretia nas águas do Tejo. E amanhecia. Enquanto as nuvens ainda eram laranja e violeta.


terça-feira, julho 27, 2004

Espetar o Dedo (Three)

Is something wrong, she said
Well of course there is
You're still alive, she said
Oh, and do I deserve to be
Is that the question?
Vedder, Gossard; Alive

Agora custa-te ser um ponto final mas enquanto ressacas, dissolve um guronsan sem esquecer o brinde ao antes em que foste um ponto de partida.
E no depois, pode custar-me ter percebido que o verbo pertencer não me pertence.

domingo, julho 18, 2004

NEU(T)RAS

Apertar uma folha de papel numa urgência do preto no branco
e largar ponto por ponto um rasto de tinta
num rascunho
Esquecer o ponto final quando não há porque ao porquê de
ninguém
e não porque alguém lembra a idade dos porquês
Emudecer até os monossílabos
e articular na ponta da língua cada onomatopeia
para que não derreta no caramelo colado aos dentes
e fixar que nem tudo o que se exprime tem som
Espreguiçar a cabeça o tronco e alma e de seguida
contrair os membros pelo atraso além da falta de espaço
dentro do cavalo de Tróia
Tomar antes do pequeno-almoço uma colher de sopa de
hidromel
Substituir os talheres pelo guardanapo
e prosseguir a limpeza da boca com garfo colher e faca na
refeição do café à entrada
Arrotar um orgasmo após o jantar
no encontro dos anónimos viciados em palavras
Passar das marcas por matar o mártir e logo
depois socorrer rabiscada num pos-it a palavra
amor
das bocas da amargura
Espetar o dedo no teu fundo
e receber o abraço do século
Congelar as lágrimas ao prever um Inverno de seca
Soprar do calendário os dias de luas
e inspirar profundamente a neura do positivo e negativo
e sai da base e nem é ácido
neutra
Trincar a essência de três túlipas
e comparar com a ressaca do dobro em cuba livres
Ouvir de tudo
para ter de aceitar absolutamente nada
nunca
(dizer nunca
repetir nunca
nunca nunca nunca)
Cortar as asas à imaginação
e colar aos ombros com cuspo
Tatuar-se em tinta depois de tirar a virgindade a
uma folha de papel numa urgência.

sexta-feira, julho 16, 2004

Joe

Estremece as pálpebras enquanto abre as duas azeitonas que tem como olhos. A cama parece mais alta. A porta mais longe. Quase que esburaca a cobertura do quarto ao fixar o tecto, branco como um quimono de karaté. É que ainda ontem, o seu tecto exibia cinturão negro por causa de um fungo. Agora não. Ele torce o nariz; perante a ausência do bolor grudado, pelo cheiro estranho que lhe invade as narinas.

Esfrega os olhos sem a presença de um obstáculo. Lá fora deve de estar claro porque o Joe só usa óculos escuros à noite, e de dia adormece-os na mesa-de-cabeceira enquanto, normalmente, também ele dorme. De noite, é a personificação do “homem Martini” nas discotecas da moda, embora seja o “Johnnie Walker” que lhe assenta na mão. Bebe sempre whisky misturado com ácidos – um dos luxos a que o Joe se dá; pela vida de gozo que leva e pelas noites de gozo que proporciona. Mesmo quando o “Johnnie ácido” o encosta a um canto – o que ocorre no dia-a-dia, melhor, noite-a-noite –, e dissipam-se as trombas de elefantes cor-de-rosa que por vezes enrolam-se à cintura de uma das suas clientes habituais, sempre que reanima é impossível a fricção directa dos olhos porque no rosto permanecem as lentes escuras. Por isso deve de ser dia lá fora. Por isso não encontra os óculos. Por isso, vê por um óculo os óculos ao constatar o desaparecimento da mesa-de-cabeceira. E também por isso, além de rodeado por paredes e um tecto completamente branco, grita «Estou no céu», enquanto espreita debaixo dos lençóis a falta dos boxers personalizados: “Here you can call me Dick”.

Estático; agora nota-se-lhe apenas movimento pela pigmentação verde azeitona da íris. A retina faz birra por uma imagem familiar. Nem que seja uma sombra de mulher entre as suas coisas. Mesmo que essa mulher não lhe traga nada de familiar, que é o habitual sempre que acorda – o que é raro – na presença da última cliente da noite anterior. E quanto aos objectos? Simplesmente desapareceram. Apenas um cheiro; em nada semelhante ao seu, nem relacionado com alguma das suas coisas ou com coisas que se relacionam através de cheiros, mesmo que não nossas. Apenas uma cama. Sem mesa-de-cabeceira ao lado. Sem óculos sobre uma mesa-de-cabeceira. Apenas uma cama mais alta, entre quatro paredes e um tecto, onde nem o fungo pernoitou. Como se uma revolta tivesse ocorrido naquele quarto e os seus pertences abalaram. Por obra do Espírito Santo, pensa ele.

Os fios do pensamento enovelam-se a uma velocidade alucinante. Pelo menos aquando a fusão dos ácidos no whisky, Joe está preparado para os elefantes cor-de-rosa, para o efeito alucinatório. Recorda-se da mãe o obrigar nas noites de insónia, a rezar as ave-marias e os pais-nossos que aprendia na catequese – de frequência também obrigatória – impedindo que ele contasse carneiros, como todos os putos na escola primária. No entanto, agora que pode numerar carneiros, Joe fixa os olhos na porta que parece mais longe do que nunca e não lhe escapa da memória a imagem do S. Pedro. Talvez uma tentativa, infrutífera, de dominar a invasão das suas narinas pelo cheiro que para além de desconhecido torna-se cada vez mais nauseabundo. Joe teima em se decidir: se o santo apenas controla as comportas celestiais ou é também ele a decretar quem viaja até o céu ou até o inferno. Neste momento, acredita que se abrir a porta e sair do quarto, do outro lado pode encontrar de tudo. Talvez porque desapareceu tudo. E nem vale a pena tomar a nuvem por Juno: aquele quarto já não é seu, desde o instante em que o tecto branco que nem um quimono de karaté, perdeu o cinturão negro pela ausência do fungo. E nem vale a pena pensar mais nisso porque neste preciso momento, a porta abre-se e não é por obra do Espírito Santo.

- Joe, não é? Temos gente para atender que só por obras de Santa Engrácia! Não imagina a sorte que teve em pernoitar na nova morgue do hospital. Aqui entre nós, porque os que aqui estão já não nos ouvem, parece-me que o Director achou que um organismo com tanta porcaria numa só noite, no dia seguinte já tinha ido desta para melhor. Desculpe lá a demora... A enfermeira do turno anterior esqueceu-se de rotular os seus pertences. Joe, não é? Pensava que era Dick.

quarta-feira, julho 14, 2004

Não me Mandes Um Postal Porque de Vez em Quando Passo por Lá

- Ser feliz

(agora que me respondes isso, lembrei-me de seguir até ali, mas antes deixar-te coordenadas porque é só abrir a porta do quarto, virar à esquerda, depois dois passos até o cruzamento da secretária com cinco prateleiras numa estante, e fingir um STOP na quarta de baixo para cima)

- Ser feliz

(agora apetecer-me que emudeças é demais porque à pouco não te esqueceu falar e
- Ser…
é tarde com os meus amigos derramados pelo álcool, dentro dos copos não há espaço sem ar e pelo tom amarelado do âmago plástico sei quem bebeu cerveja, quem bebeu sangria tatuado às riscas roxas nas pregas da boca, todos a acordar um pirilampo onde dedos seguram cigarros e lembro-me de ir com eles emitir luz, para outra rua do Bairro Alto, agora que tu falas nisso de)

- Ser feliz

(lembro-me no outro dia, outro que não tu também a jogar ao monopólio com

- O que é que tu queres?

uma casa de partida adulterada sem os dois mil escudos de quando éramos putos: “Passando aqui receba a felicidade”, na companhia de outros peões, da porteira de pé na reforma que com os dois alcança a casa do “estacionamento livre” – o capital agora presente na minha porta, no meu próprio tapete a fazer-se ouvir porque

- A menina agora tratar das contas do condomínio mas não se chateie, o que importa é ser…

a beata da porta em frente diz-se ocupada

- Obras da Igreja, percebe?

não só arranja casa para os bem-aventurados mas também uma neta adolescente

- Eu só quero ser feliz

a mesma vontade de eu a querer encher-nos o copo

- O que é que tu queres?

depois tu

- Ser feliz

depois eu

- …

agora lembrar-me que já não jogo ao monopólio para mais de uma dezena de anos e o jogo continua, sem interessar se os peões
com vinte
com trinta
com quarenta ou outros tantos “enta” anos, todos contigo também a querer ficar pela casa de partida e por isso

- Ser feliz

uma vontade de eu seguir para outra conversa no Bairro, a seguir na minha cabeça um jornalista que não conheço com uma crítica não minha mas a criticar-te

- Não traz nada de novo

depois de te ouvir até pode ser, lembrar-me de ir mas antes completar-te

- Ser…

deixar-te coordenadas porque as tenho na quarta prateleira na estante do meu quarto, no cruzamento da letra “O” com a “Q” fingir um STOP com a palma no CD do Palma, porque é só abrir a faixa número 9 para virar até onde a “terra dos sonhos” e lá

- “podes ser quem tu és…”
- Ser feliz

não é para onde agora vou e já não venho; lembrei-me de seguir até ali onde se mantém a propriedade de emitir luz, até porque à falta do insecto os meus amigos reinventam pirilampos de cigarro nas mãos, e até o mais derramado pelo álcool capaz de me perceber

- O que é que tu queres?

não menos que uma boca roxa mas de sangria ou a garganta sobre a terra
já agora com borbulhas de cerveja
agora apetecer-me uma já que me respondes

- Ser feliz)

- Enquanto secas à espera, digo a alguém que te dê de beber?

sexta-feira, julho 09, 2004

Por Outras e por Esta é que o Raio do Sol (Ainda) me Queima a Pele

Hoje deixo-te o aviso de que não te leio mais. Vi-me a desejar-te em pessoa e deixa estar se a personalidade fictícia, à vez desses teus personagens com melanina na pele. Vi-te a (quase) detectar-me como se eu um raio ultra-violeta. E és o raio de um raio (não quase) a perceber que se te apanho na pele neutra se produz vitamina D.

Hoje deixo-te o aviso de que não te leio mais.
Mais leio-te. Não hoje. Que de aviso te deixo. Por hoje.

quinta-feira, julho 08, 2004

Suicídio da Carta de Suicídio (Two)

“Kneelin', looking through the paper though he doesn't know to read
Oh, prayin', now to something that has never showed him anything
Oh, feelin', understands the weather of the winters on its way
Oh, ceilings, few and far between all the legal halls of shame”
Vedder, Gossard; Even Flow

Agá de hermético, como cada um dos vidros do carro estacionado defronte a dois ursos. Dois ursos sobre o mar: para sempre no Inverno com o agá de hibernação. Duas rochas sobre o mar transformadas em ursos. Um carro a hibernar na Praia da Ursa. Um carro mudo com a chave asfixiada pelas mãos de uma rapariga. A silhueta de uma boca de rapariga. Uma boca aberta sem moscas. O mundo cego com os restantes sentidos não apurados, com a ilusão de um carro às moscas. O mundo fora do carro enganado pelos vidros fumados. Dentro do carro uma rapariga surda para com o mundo lá fora, a olhar lá fora o mundo cego que não a vê lá dentro. Por dentro. Entre vidros fumados. Lado a lado; a caneta intacta e uma carta sem condimento. Uma folha completamente branca, completamente intacta como a caneta. Carta e caneta – ambas no lugar do morto. No lugar do condutor a silhueta de uma boca. Sem moscas. Aberta. Por dentro. Fechada. Lá dentro. Um contorno de um corpo de rapariga. Mais a dentro. Por ela adentro. Uma dor branca por coisa de nada, por nada de novo. Novamente o branco. Uma carta em branco. Sem nada. Com nada. Novamente o nada. Andar para trás e para a frente. Ou vice-versa. Ou o mesmo que não andar – como quando a rapariga cheia de pressa, fixa os olhos nos pés. E é o mesmo que não andar quando fixa o passo a todo o gás. Parece não andar. O mundo cá fora a fixar a rapariga. À pressa. Parecer que ela não quer andar e não é o mesmo que não andar. O mundo de fora. Cego. A silhueta de uma rapariga a fazer sentido, a olhar-se de dentro. Ela por ela adentro. Tomar sentido aos sentidos já longe. Encurralada. Entre cinco sentidos e um sem número. Sem sentir. O sentido do sentimento. Sexto, não. Intuição, não. Insensível. Por ela adentro. Um Mundo. Camuflado. Defumado por cada um dos vidros do carro estacionado defronte a dois ursos. Um carro a hibernar na Praia de Ursa. A ignição muda pelas mãos de uma rapariga, a asfixiar a chave do carro. Dentro do carro. Uma rapariga surda para com o mundo lá fora, a olhar lá fora o mundo cego que a olha por fora. Por dentro do carro: o lugar do morto ocupado por uma carta despida. De despedida. Sem despedida. Sem dedicatória; inscrição do nada pelo nada de palavras. Um carro mudo e a rapariga a hibernar uma decisão: para sempre não ser toda ouvidos. Por isso, uma rapariga surda para com o mundo. Porque o carro estacionado defronte a um mundo cego, um mundo incapaz de parecer mais que matéria vegetal. Como a folha de papel. No lugar do morto. Branca. Intacta. Ainda no nada. Agora o nada. O fundo do fundo. O branco na folha. Asfixiada pelas mãos de uma rapariga decidida. Parecer que ela não quer andar e não é o mesmo que não andar. Até o lugar do morto. Ocupado pelo branco. Pelo suicídio. Pela morte precoce de uma carta de despedida. Restar nada. Não às palavras. Do fundo do fundo. Não à despedida. Não há palavras. Com agá de haver. Como a letra agá que existe e não se lê. Até que uma mão apague o mutismo da letra agá, até que uma mão mate súbditos do reino das palavras. Como de súbito, a silhueta de uma mão de rapariga a devolver a fala ao carro. Ao encontro. Por coisa de nada. Libertar a chave. A dor branca. Por nada de novo. Acelerar o voo branco da carta. Sem sentido. Não tomar sentido aos sentidos já longe. Libertar e libertar-se. Alívio. Uma dor de tom lívido. Acelerar o suicídio da carta de suicídio. Acelerar-se. Ao encontro. Um carro de encontro a duas rochas que formam dois ursos sobre o mar: para sempre no Inverno, com o agá de hibernação.Com tudo. A restar nada. A carta não escrita. A levar tudo. Até as palavras. Principalmente as palavras. Principalmente não deixar a insustentável imortalidade da palavra.

quarta-feira, julho 07, 2004

DES(A)PERTAR

Na incerteza do sono passou-me um unicórnio ao lado e de um só lampejo; seres tão real como asas num cavalo.

quarta-feira, junho 30, 2004

À Primeira é de Vez (One)

“I admit it...what's to say (…)
I got a sixteen gauge buried under my clothes (…)
I got a backstreet lover on the passenger seat”
Vedder, Gossard; Once

Não é preocupante se te rires descontroladamente. Não é o teu marido que está no teu lado da cama mas bem sabes que é o marido de alguém, logo

- Cláudia, o Renato chegou-me a casa sem aliança

perante uma cena destas no palco dos teus lençóis, bem sabes que
(“uma imagem vale mais que mil palavras”)

é despreocupante se te apeteceu rasgar as cortinas brancas do quarto e fingir que baixas de vez o pano, evitando a estreia desta peça, evitando essa tua ânsia por substituir a imagem que vês pelas mais que mil palavras; podes tentar

(fechar os olhos e desejar com força)

esquecer-te da mandíbula descaída, dos teus olhos mais inabaláveis do que um morto e

(concentra-te no teu respirar: um, dois, três…)

admira-te que mantenhas a verticalidade ao encarar outra pele que não a tua no teu lado da cama, um batom que é o teu ilustrando outros vincos labiais, mas
(tu nem gostas daquele tom rosado)

reparas no carimbo epidérmico acusando um dedo nu e

- Cláudia, o Renato chegou-me a casa sem aliança

mesmo que os conseguisses agredir com

-Bang! Bang!

descrições da imagem que vês, eles não te iriam compreender, talvez porque

(convém fingir não te perceber)

deixaram de te olhar de pés fixos em harmonia com a gravidade, a mão dormente não pela maçaneta fria da porta, escancarada, e no quarto, no fundo

- Não é nada do que estás a pensar

(convém fingir que quem não percebeu foste tu)

convinha acreditar que não te viraram ao contrário no mundo, nem te enterraram a cabeça ainda mais que a de uma avestruz, e o cérebro no fundo do fundo, às piruetas, como quando colocas na máquina de lavar essa camisa de noite cor-de-rosa que vês; a cobrir

(da mesma cor do batom que também é teu, mas tu nem gostas daquele tom rosado)

uma maçã-de-adão que arrefece no teu lado da cama e embora a reconheças e a esse dedo nu

- Cláudia, o Renato chegou-me a casa sem aliança

sabes bem que se conseguisses falar, de nada te adianta conheceres milhares de palavras porque

(de muito te adianta teres um revólver em casa quando não o queres usar, ou seja, não é a mesma coisa que não o ter)

há imagens que nos cortam a língua e dão corda aos maxilares e tu não te libertas do

- Bang! Bang!

duplo estrondo entre momentos
dentro de momentos
no palco dos teus lençóis, o apodrecimento de uma maçã que é do teu marido, porque embora não estejas no teu lado da cama, sabes bem que ao lado do teu marido expira a validade de uma outra maçã, do marido de alguém, logo

- (…) a casa sem aliança

não é preocupante se te rires descontroladamente entre momentos
por momentos
evitas essa ânsia por substituir a imagem que vês emoldurada no que era a vossa cama; o chantilly até combina com morangos, tal como um cortinado branco a cobrir duas sangrentas maçãs-de-adão

(e tu que nem gostas do tom rosado).

quinta-feira, junho 24, 2004

RASGA-ME

Dizem-me que estou viva. Mesmo quando só, esbarro num reflexo que me dita que os mortos não têm as pálpebras inchadas. Os mortos não choram. Não necessitam de bóias pré-preparadas para flutuar na intempérie que, de quando em vez, acaba por declinar de cada olho vivo. O exterior não é bóia se me afogo interiormente. Finjo que não o reconheço, mas acabo sempre por me agarrar a algo – invisível ou imperceptível – ou algo agarra-se a mim. Dizem-me que morreste e às vezes vejo-te chorar. A mim, deixaram-me as lágrimas porque não nos sinto. Logo, sou um morto-vivo até que a morte nos una outra vez.


Conto de Carne e Osso

Essa história de te queixares à tua mãe, Srª D. Camélia, de não comeres lasanha de frango há mais de um mês, não ser nada disto que querias quando o Renato te cumprimentou com

- Parabéns, pá

palmadinhas nas costas e tu talvez a desconfiares que nem essa barba rija me impediria de vos manter aqui; a ti e ao teu rabo, plantados no sofá, mesmo que nenhum dos dois tenha já idade para estórias da categoria “era uma vez”.

Lá por não saberes onde colocar o teu polegar viciado em zapping, não saberes se o dedo aguenta a ressaca, porque te arranquei o botão encarnado do comando
(que mais parecia um foguete, que o diga, e disse, melhor miou o gato
-Miauuuuuuuuuu)

apercebe-te ao menos que para não acertar em ti, acertei na cauda cinzenta do felino, e tu

- Drama

provavelmente a pensar na próxima queixinha recompensada com

- Chico, a mãe faz-te a lasanha de frango

algo caricato, como essa fotografia do rally em que tu e os teus amigos finalmente entraram e grudaste no prego, por cima de ti, escapando-te o pormenor que a fita-cola não é a melhor opção, por isso

- A foto caíu

as pessoas sentadas no sofá e de quando em vez, a apanhar contigo e os teus amigos de capacete a lhes rirem no colo, na cabeça, mas na tua cabeça não te cai

- O lixo

que mesmo provada a inexistência da geração espontânea não implica que as larvas não apareçam, nem aparece a peúga que esqueceu-te debaixo de um tapete, comigo a

- Porra

ficar ainda mais fula por nunca conseguir colocar-te na gaveta o par, conseguir perceber que “era uma vez” uma casa que se tornou um espaço demasiado apertado, onde se arruínam coisas, onde se emaranham os nossos domínios, e
(o Renato
- Parabéns, pá)

tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu nunca chegando a ser meu

- Porra

nem teu

-Drama

nem a casa que por vezes é uma pocilga, por vezes o azul vascular a dilacerar entre duas cabeças desvairadas e troncos desnorteados, sem latitudes nem longitudes, incapazes de traçar um mapa porque a bússola nutre-se de pó algures na balbúrdia da dispensa, e a piorar
(a D. Camélia
- Chico, a mãe faz-te a lasanha de frango)

a ausência dos bafos relaxantes no cigarro porque os cinzeiros estão empanturrados, acredita-me

(não chegamos a consenso de quem era a vez de os despejar)

essa história que contaste à tua mãe, já ela conhece desde o dia em que o teu pai acordou em casa e foi

-Porra
-Miauuuuuuuuuu
-Drama

se queixar à tua avó de não comer lasanha de frango há mais de um mês.

sexta-feira, junho 11, 2004

Esqueceu-te Parar para Correr

À Andréa, pelo meu atraso

ainda que tivesse pressa nesta dedicatória


Tentando raciocinar agora com calma, não sou eu que estou assim tão atrasada quanto isso, não és tu que irás matar as saudades nem eu tão pouco, e esta que vejo no espelho tenho a certeza de que não é a mesma que atendeu o telefone e

- Estou?

de maneira nenhuma te reconheceu a voz arrastada que

- Tenho saudades tuas, Maria

me fez libertar a asa da chávena com bafo a Lúcia-lima enquanto o corpo se desenterrou do sofá, a cabeça do chapéu de coco da Sabina que usava quando eu a reler o Kundera em mais um dia de “Insustentável Leveza do Ser”, tu a me esmagares o nome de indicador espetado numa página amarela

- Tenho saudades tuas, Maria

eu a revirar os olhos que já não eram bem olhos; duas pálpebras insufladas cobrindo e cobertas por dois círculos roxos, agradecida de não me veres as olheiras, não veres uma pele baça acusando que

- Foste mazinha em não me dar o teu número

extinguiu a luz do rosto; o tabaco entope-me poros e cada vez mais sebo a se oxidar e por isso um nariz salpicado por pontos negros, por isso eu agradecida de não ter uma daquelas maquinetas que comprou a minha irmã

- Videofone, Maria

eu engolindo uma espinha invisível quando

- É só apanhar um metro, num pulinho estou na linha vermelha

tu a me facilitares vinte minutos, não, um minuto por cada ano da minha vida, logo tu a ditares trinta minutos sem pedir autorização, oferecendo-me uma pressa e
(os presentes não se recusam)

- É só apanhar um metro, num pulinho estou na linha vermelha

fui rápida e eficaz; apressei-me para o frasco das mãos acetinadas, da firmeza do rosto e correcção das rugas
(não correcção, prevenção das rugas)

enquanto o frio lá fora eu a fingir o Verão de cara banhada em pó de bronze, a dar no lenço de papel autógrafos de batom, hidratante e suave com sabor a framboesa, a me lamentar ao frasco do Chanel nº5 de todo o dia ter tido como companhia a garrafa de água porque
(cumprir a recomendação de beber 1,5 litros por dia)

agora a bexiga cheia por dentro e cá fora esta pança proeminente, tentar condizer o meu je-ne-sais-quois não pendurado num cabide e uns jeans de cintura baixa após destruir o guarda-fato inteiro e montar em cima da cama a Feira da Ladra, depois optar pela primeira escolha ou, simplesmente, com dois dedos de conversa mental saber exactamente

- Tenho saudades tuas, Maria

usar preto e parecer mais magra, disfarçar a palidez beliscando as bochechas e em vez de beber mais chá
(1,5 litros de líquidos por dia; não esquecer que a água que o chá, café ou sopa contêm também conta)

colocar as saquetas húmidas sobre as pálpebras e apagar o vermelho arroxeado, o que só por si exigiu 10 minutos para descongestionar os olhos, enquanto tu e eu num outro congestionamento confuso, de confusões porque

- É só apanhar um metro, num pulinho estou na linha vermelha

tentando raciocinar agora com calma, não estou assim tão atrasada como tu
(três horas e trinta minutos conspurcando o ambiente da sala com argolas de fumo e entupindo novamente os poros)

nem esta que vejo no espelho ,de certeza, é a mesma

- Foste mazinha em não me dar o teu número

procurada na lista amarela para receber

- Tenho saudades tuas, Maria

essa tua urgência e eu estupefacta só a puxar um fecho na boca aquando o som mudo do auscultador, pois deve ter sido a falta da maquineta

- Videofone, Maria

que te privou do meu rosto desfigurado, impessoal, desconhecido agora na calma da espera a desesperar e a rever a voz arrastada que continuo sem reconhecer; agora bem nítido o teu dedo a esmagar a Maria errada

- É só apanhar um metro, num pulinho estou na linha vermelha

eu, de poiso na recta verde que contêm Alvalade
por acaso
a rimar com a Saudade que tu não irás matar nem eu tão pouco, embora aqui cheia de pressa mas não pronta para dizer adeus às saudades
dizer adeus às minhas saudades das saudades
de que tenham pressa de matar saudades e tu a caminho

- Tenho saudades tuas, Maria

eu novamente de corpo enterrado no sofá e cabeça num chapéu de coco como a Sabina do Kundera que agora encontra-se só, a olhar-se num espelho ainda “perseguida pelo mesmo instante perdido!”.





quinta-feira, maio 27, 2004

Impenetrável

A culpa é do Peter Pan. De manhã, levei os miúdos a ver o filme do puto que até hoje ainda não cresceu e lembrei-me de ti, pensando realmente que pode ter sido aí que tudo começou, quando te ofereceram no nosso sexto aniversário páginas de meninos perdidos que vivem numa Terra de nome fantástico que a mãe alertava que não se deve dizer. Na verdade, os tios embrulharam-te bem; refundiram aqueles rapazinhos imberbes para todo o sempre, num laçarote dourado e papel colorido de póneis acompanhados por palhaços. Rasgaste a cobertura da prenda. Restou apenas um laçarote já não tão luzente, marcado pela sola das tuas sapatilhas de princesa cor-de-rosa, e umas bocarras vermelhas entre retalhos de cavalos anões amarfanhados na relva do jardim. Correste abocanhando com os teus dedos aquele menino que teima em não crescer, para exibires o livro ao pai, à mãe, a avó, ao Pedrinho (o teu melhor amigo) e por último à princesa azul (eu). Aquela conspiração que o pai, a mãe e a avó faziam em nos vestir iguaizinhas, ignorando o facto de que fui a primeira a aguentar com as palmadas daquela enfermeira gorda e antipática que no outro dia a mãe nos apresentou. Lá por o raio do óvulo fecundado se ter dividido em dois eu continuo a ser a mais velha. Mas não… Todas as festas de anos, para seu deleite, lá exibiam duas amostras de infantas a dividir uma boneca cremosa gigante. De certeza, também te recordas; para soprar as velas que lhe colocavam nos fiapos amarelos do couro cabeludo – digamos sem ser de passagem, que a ideia não foi muito feliz e as velas mais pareciam umas hastes – empoleirávamo-nos nas cadeiras que o pai desencantou da garagem e consciente das suas mãos aselhas, pediu ao tio José para pincelá-las a rosa e a azul (a minha).

Nunca mais deixaram de te oferecer livros. E todos os dias sentavas-te do lado de dentro do portão cinzento metalizado lá de casa, à espera da bicicleta de quatro rodas e do silvo da campainha do Pedro, enquanto no nosso quarto assisti vezes sem conta ao casamento da Barbie e do Ken (talvez por isso casei-me, tu não). Quando chegava a cabeça de caracóis loiros que se metia entre as barras férreas, de olhos fixos em ti, encarnavas uma Wendy de livro aberto sobre o colo a contar-lhe histórias como se o teu amigo quisesse fazer jus ao nome e fosse ele o Peter Pan. Mas não era. Se fosse, quando a família deixou a vila, o Pedro tinha voado até à sua contadora de histórias particular. (Naquele dia até eu desejei que ele tivesse pensamentos felizes e o pó de fada.) Não tinhas permanecido tardes inteiras acocorada de livro escancarado para quem passava na rua, na expectativa daquele tilintar singular, quando o único “Sininho” que te apareceu foi a estampa da rapariga com asas que fitavas ao repetir, “eu acredito em fadas”, o dia inteiro ouvia-te:
“eu acredito em fadas
eu acredito em fadas
eu acred…”

Hoje de manhã, antes de deixar os miúdos em casa dos nossos pais, levei-os ao cinema e finalmente baptizei a culpa: Peter Pan. Por isso, já não me espanta que tenhas organizado em tua casa este reencontro, “os bons velhos tempos”, disseste tu, e como sempre os teus amigos no jardim e tu dentro do quarto separada da festa por uma porta de vidro. Perdeste a Ana a relembrar a vez em que foste apanhada com ela a fumar no Museu da Marinha, porque fizeram disparar o alarme de fumo, e o Duarte a arranhar na guitarra o “Black” dos Pearl Jam que te faz perder o tino. Avisava-te que o Chico já emborcou uma dúzia de cervejas e com as latas te construiu uma pirâmide paralela à casota do cão, que por sua vez está com o uivo fraquejado; o que me leva a suspeitar a existência de cevada fermentada na tigela do canino. Pois continua envidraçada desse lado; a enrolar o cabelo e a amarrá-lo com o pauzinho chinês, acende um charro sozinha após colocares o “Crazy Mary” e agarra-te a essas folhas de escritos que é só o que fazes. De modo que, eu Nunca (sim, o nome da Terra desse menino) vou encher a estante dos miúdos com centenas de livros e tu livra-te de impingir o teu “Peter Pan” que observo na tua prateleira de literatura infantil. Porque eu quero que os teus sobrinhos percebam que vivem na Terra e não no “planeta do Nunca”, que pode bem ser o nome desse sítio de papel para onde foste viver numas das tardes em que casei a Barbie e o Ken, enquanto te despedias da mãe, do pai, da avó, do Pedrinho e de todos os amigos, e por último da princesa azul, repetindo “eu acredito em fadas”, comigo a perder-te e a deixar de te ouvir:
“eu acredito em fadas
eu acredito em
eu acredito
eu.”

domingo, maio 23, 2004

Lusco-Fusco

Gosto de te ver dormir, entesourado de barriga para baixo imprimindo uma cova de linho nos lençóis, porque fico a sorrir para um sorriso metade nos lábios metade amachucado na almofada e além disso não ressonas. Por isso encolho-me sentada e agarro os joelhos no meu lado da cama só transposto por uma das tuas pernas enquanto a outra apanha ar fora do colchão. Não sei se sabes, mas ficas sempre tatuado por um cabelo meu e quando respiras esvoaça o fio preto que volta a aterrar entre a tua pálpebra e a vírgula cicatrizada que tens no queixo. Certifico-me sempre que tenho o teu cheiro a sono ao escorregar os cinco dedos pela cara. Não sei porquê, mas agora consigo realmente acreditar que existe a tal cúpula envidraçada guardada a arco e flecha por Artémis, como escrevinhaste em poema nas costas da conta dos pastéis de Belém enquanto lanchávamos esta tarde. Estavas também despenteado, logo não foi por isso que nos vi sob vidro rachado entre estilhaços e uma seta no chão. Assim saio de mansinho às escondidas de Morfeu enquanto dormes e sonhas porque de certeza, nos teus sonhos amanhã eu não fui embora.

quinta-feira, maio 20, 2004

Lágrima*

Ao Zé, pelo caso sério do acaso



(Cheia de penas
Cheia de penas me deito)

A rapariga saiu de casa como um autómato. As paredes do quarto tornaram-se muralhas e só a faziam sentir-se mais aflita. Queria mesmo descansar. Esquecer-se que a seguir a uma inspiração vem uma expiração. Voltar a viver sem lhe ocorrer que vivia. O bater da porta soou a um galho partido. Um estalido, nada mais. A vizinha espreitou pela porta entreaberta, metediça como sempre. E embora ela não soubesse, a rapariga sentia o respirar que a velhota julgava camuflado pela porta. Mal sabia que a garganta a atraiçoava e ouviu-se no corredor o seu ladrado. “Rapariga estranha”, começava ela, “Onde já se viu não sair de casa durante uma semana e ouvir todo o dia o mesmo sol-e-dó? Mais valia continuar com aquelas músicas de doidos”.

(E com mais penas
E com mais penas me levanto)

Prosseguiu o linguarejo tal e qual uma torneira que não se consegue fechar. “Já tenho o ouvido rachado, logo eu… A moçoila nem tinha nascido e já eu ouvia esse fado, desde que me lembro de ser gente; ai que saudades dos arraiais no adro da Igreja de Santa Maria, ai a minha Vila Nova de Santo André!”

(No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto)

Eram nestas alturas que a rapariga aplaudia interiormente morar em frente à D. Camélia. As suas personagens favoritas eram as “D. Camélias” deste mundo. Porque assim, ela podia sempre desvendar novos capítulos sem que precisasse de consultar uma única folha impressa. Também o livro daquela vida não cabia no caos da sua bolsa. Foi aí que a rapariga pensou que dificilmente as vidas davam livros. Quanto muito páginas de vida podiam dar um capítulo e capítulos de vida podiam dar um livro. No entanto naquele dia a rapariga não deu palmas dentro de si perante o calhamaço de páginas sentenciados pela vizinha.

(Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim o castigo)

A rapariga precisava de respirar. Mesmo consciente do contínuo trabalho das esponjas pulmonares, desde há uns dias para cá que se sentia a sufocar. Quando o elevador parou no rés-do-chão, o que se deixou ficar uns segundos lá dentro, era o autómato que partiu um galho ao fechar a porta. A rapariga deixara de ser rapariga. Os primeiros sinais desta metamorfose surgiram quando começou a parar no tempo. A “paragem” era o resultado físico por fugir para algum lado sem mover qualquer músculo ou nela se eriçar um único pêlo.

(Eu não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo)

Sentou-se no carro. Acompanhou o som da ignição com um suspiro irónico – denunciando um daqueles sorrisos embrionários que jamais se manifestam corporalmente.

(Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver)

Tinha que ver, ouvir, cheirar e se possível sentir o mar. E por isso a rapariga caminhou naquele entardecer sobre o muro de pedra no Cabo da Roca. A típica ventania investia no roubo do seu cachecol negro, atado por um só nó ao pescoço. Fechara os olhos quando a luz do farol iluminou o seu globo ocular.

(Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer)

A rapariga passou a língua pelas rachas labiais. Tinha ambos os olhos mirrados e o rosto igualmente árido; a favor da seca dos canais lacrimais, a favor do vento exterior. Sabia que para conseguir chorar precisava de um pensamento triste ou, então, rir até se cansar. Mas não se lembrou de nada suficientemente doloroso ou eufórico.

(Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar)

Acabou por se aperceber que o alívio não viria pelo choro nem por uma dor de barriga. Concentrou-se nos gritos do mar lá bem no fundo, bem longe do muro de pedra. As ondas lutavam incessantemente pelo escuro das rochas, do mesmo modo que o vento ainda teimava em usurpar o cachecol negro da rapariga.

(Por uma lágrima)

De repente lembrara-se do comentário da D. Camélia, “rapariga estranha”, e achou-o hilariante. Riu até a dor de barriga, até se cansar, até se aperceber do seu estado eufórico. Depois a rapariga quis também chorar. Mas aí, novamente já não se conseguia lembrar de nada. Foi ainda há pouco, que pensou num bom capítulo da sua vida que podia dar um livro. E agora, finalmente, uma litografia de um rosto húmido e não seco e os gritos do mar
lá bem no fundo
os gritos do mar, lá bem no fundo, numa luta incessante pelo escuro das rochas e pelo cachecol negro da rapariga.

(Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar)

*(Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves)


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